terça-feira, 21 de abril de 2015

HOMEM IDEAL

Arte de John Melville

A mulher tem implicância com o homem engraçado, diz gostar mas não aguenta. Tem repulsa do piadista, aquele que desfia seu repertório de piadas depois de um almoço ou janta, transforma seus dentes num palco iluminado e mergulha num stand up de duas horas.

Mulher prefere quem entende o momento de rir e de ser sério e não demora demais nem num espírito, nem no outro. Espera versatilidade e pontualidade, que veja a hora de ser leve ou solidário, de modo nenhum alguém que invente comédia e force bom humor quando ela está sofrendo.

Deseja mesmo o gracejo, não o sorriso escancarado de chorar. A mulher reserva a gargalhada para seus amigos, já para seu namorado anseia rir com o rosto, rir bonito, não rir de qualquer jeito.

Complicado corresponder às expectativas femininas. É preciso definir um ponto de equilíbrio. Não encarnar um extremo, mas compor sutilezas dentro do comportamento.

Homem tem que ter firmeza, não força. Demonstrar segurança em suas ideias e atitudes, não necessariamente ostentar músculos e barriga tanquinho. Virilidade vem da determinação, surge do caráter. Carregar a alma de uma mulher é mais difícil do que levá-la nos braços pela casa.

Homem tem que ser corajoso, não confundir com precipitação. Coragem é sequência, manter a vontade imperiosa de amar, apesar das dificuldades e senões. Jamais desistir no primeiro obstáculo.

Homem tem que ser romântico, não desesperado. Surpreender e se declarar como se fosse simples e natural, evitando a soberba da emoção e o autoelogio.

Homem tem que ser sincero, não grosseiro. Pontuar a verdade olhando nos olhos e sempre perguntando como sua companhia vê a situação. Decidir junto enquanto é dúvida, não relatar o que já foi feito.

Homem tem que ser sensível, mas não chorão. É se emocionar sem ocupar o papel central, flertar a tristeza com muita alegria, como faz o samba, e não exagerar na tinta de suas lágrimas.

Homem tem que ser compreensivo, mas não submisso. Ouvir, entender e se posicionar, ainda que provoque discordância.

Homem tem que ser sexy, mas não performático. Não invente de fazer um strip-tease e pole dance. Estragará toda a reputação construída ao longo deste texto.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.44
Porto Alegre (RS),  19/04 /2015 Edição N°18137

O SOBREPESO DO DIMINUTIVO

Arte de Vicente Dolpico Lerner

O casamento corre riscos quando passamos a usar o diminutivo.

Sério: di-mi-nu-ti-vo.

É mais do que um cacoete de linguagem, é a formalização do término.

Preste atenção. É um caminho sem volta. É domesticar o outro, abandonar a felicidade, tirar o sal da comida, acostumar-se com a rotina.

O diminutivo é a prova de que o amor está também diminuindo.

No início da relação, a mulher é chamada de amor, luz do sol, gostosa, pequena, delícia, linda, maravilhosa.

De um modo limpo e definitivo. Sem nenhum risco de falsidade. Sem nenhuma ameaça da ironia. Sem nenhuma afetação. Com o deslumbramento sinceramente apaixonado.

No fim da relação, torna-se "amorzinho", "bebezinha", "gostosinha", "engraçadinha", “queridinha”.

O romance acaba por causa do inho/inha

O que era bom vira bonzinho.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (17/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 20 de abril de 2015

HOMEM DE LATA

Arte de Eduardo Nasi

É curioso.

Quando perco meu coração (e meu coração fica com a ex), sou mais sensível.

Estudo qualquer banalidade, decifro latidos e piares, olho fixamente folhas caindo das árvores até o pouso final, retiro besouro de meu casaco e ponho em segurança no muro, escuto tormentos longe e me importo com a movimentação próxima das gentilezas.

Ansioso pelas reações e respostas do mundo, nada me escapa, amparo quem chora e sofre, converso com os mendigos e dou o meu braço para o vento atravessar a rua.

Sem coração, viro humano, quebradiço e sequioso. A sensibilidade se multiplica, a ponto de qualquer gota de orvalho na pele se aproximar do impacto de uma tempestade de granizos.

Já quando estou feliz e com o coração pleno acabo sendo indiferente, impessoal, egoísta.

É estar feliz com a mulher, que dispenso as notícias e os desastres. Nenhuma tragédia me surpreende e me assusta. Afasto-me das preocupações para manter a leveza do romance.

Nego os problemas dos outros, finjo demência e surdez, priorizo a vida a dois. Eu me economizo, eu me guardo, eu me controlo, avarento com a minha sorte.

Cada vez mais admiro o homem de lata.

Ele não tem coração, mas é o mais intenso, o mais passional, o mais preocupado com a necessidade das palavras da turma de Dorothy, criada pelo escritor Frank Baum.

Está quase chorando, quase soluçando, quase suspirando.

O quase é assustadoramente superior em emoção ao transbordamento.

O quase é permitir espaço aos demais, dar espaço aos demais.

Durante a separação, somos o homem de lata. A cabeça é um funil e as juntas enferrujam. Andamos atrapalhados, não contamos com a elasticidade e ambição dos gestos, tropeçamos em nossas próprias ferragens.

Somos sucata pensativa, ferro retorcido e galvanizado às pressas.

Há uma couraça na aparência e, ao mesmo tempo, uma vulnerabilidade na forma de se relacionar: acessível aos escorregões, disposta a pedir ajuda, antena do batimento cardíaco dos bichos.

Ao perder o coração, somos estranhamente mais coração. Somos todo coração. A perna é coração, o braço é coração, o fígado é coração, o rim é coração, o pulmão é coração.

Quem vive o divórcio conhece a atenção extrema da esperança. Lança-se ao caminho para reaver o amor e reintegrá-lo ao seu peito. Não tem a soberba da posse e o controle dos sentimentos. Com uma humildade que somente existe nos desesperados.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
15/04/2015


EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

Arte de Pedro Friedeberg

Você não vai acreditar. É a primeira vez que estamos nos vendo e não é a primeira vez. Eu, na verdade, voltei para este 23 de agosto de 2013. São 20h20min, instantes anteriores ao nosso beijo. Parece loucura, mas daqui a 15 minutos você perguntará se ficarei contigo, de um jeito direto e abusado, e responderei, envergonhado diante de nosso pouco contato:

– Acho que sim.

E daí o chicote de sua língua não deixará por menos:

– Acho não me serve!

Com o desafio, não me restará opção, prenderei seus braços na parede e beijarei você longamente.

Queria dizer que vim do futuro porque não consegui corrigir o nosso presente – e sinto uma saudade imperdoável. Nossa vida está condenada ao ressentimento.

Não confia em mim? Pois não escolheremos nenhum prato principal na risoteria. Iremos do couvert direto à sobremesa.

Ainda não acredita? Sairá para fumar, aliviada que também fumo, sempre desejou um namorado fumante, estará chovendo e colocará o casaco na cabeça imitando um elfo.

É duro ser claro sem assustar: precisaremos de sinceridade acima de qualquer gesto, não devemos esconder nada um do outro, conte-me tudo!, abandone laços de seu passado, desapegue do que viveu.

Não tem sentido o que venho falando, né? Como posso adverti-la daquilo que nos afastou e não estragar a noite em que começamos a nos conhecer?

Neste momento, imagina que sua principal confissão a fazer é que se veste como hippie e que espero uma mulher produzida. Se o medo fosse sempre assim, doce e ingênuo, estaríamos salvos. Você vai errar comigo e não se movimentará para consertar, envergonhada e imobilizada pelo orgulho ferido. E perderemos o contato. Perderemos antes uma gravidez, perderemos antes nossa espontaneidade, perderemos antes nossa vontade de morar em uma casa na Zona Sul, perderemos antes nosso sonho de véu e grinalda na Igreja da Matriz, perderemos antes o apoio das famílias e dos amigos. E nos perderemos para sempre. Iremos nos separar em 2015, depois de um ano e sete meses. Hoje vamos transar, será inesquecível, seu corpo foi feito para se encaixar no meu, adoramos a mistura de nossos perfumes, estaremos leves, alegres, maravilhados. Nos próximos dias, não vamos desgrudar, trará lentamente sacolas de roupa para o apartamento, até vir com as malas, até aceitar o meu pedido de casamento com o olhar encolhido de felicidade, mergulhada numa braçada de rosas colombianas.

Mas, amor, só posso pedir agora para nunca se separar de mim. Em hipótese alguma. Meu tempo está acabando e já beijarei seus lábios tremendo de ternura.

Vejo que não entende a gravidade do meu apelo. Pensa que é apenas uma declaração romântica. Esquecerá no meio de tanta coisa boa desta madrugada e nunca mais terei chance para avisá-la do quanto é um crime para a eternidade não estarmos juntos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 8, 14/04/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18132

ENDIVIDADOS

Arte de Joan Erbe

Quando temos uma dívida a pagar, o costume é sumir.

Já perdemos a vergonha de mentir e arrumar uma desculpa.

Desaparecemos porque nem existe mais o que inventar. Na falta de condições, gastamos a imaginação. Optamos por não fazer mais contato até surgir um milagre para resolver a pendência.

Só que o isolamento repentino piora a situação e faz com que o endividado se assemelhe a um caloteiro.

É neste momento, quando tudo está contra, que precisa da firmeza para ficar. E não sumir em hipótese alguma. Ser honesto para atender as ligações, explicar os contratempos sem mentir e justificar que não encontrou um jeito de pagar, porém não esqueceu o compromisso.

O problema de toda a dívida são os juros do medo. É o medo de ser ofendido. É o medo de decepcionar. É o medo de não cumprir a palavra. É o medo de fracassar.

Não são somente dívidas materiais, há pessoas que somem de perto de amigos ou de seus namorados quando erram demais, repetem as mesmas falhas e não têm coragem de encarar a reincidência de frente.  Absolutamente constrangidas, preferem se distanciar.

Permaneça perto, fale o que está sentindo ou o que está passando. Seja sincero. Negocie. Mas enfrente a realidade. A honestidade já serve como entrada moral para pagar qualquer atraso. A honestidade sempre é a primeira parcela.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (14/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 15 de abril de 2015

CAIXÃO PEQUENO


Arte de Gino Severini

Ele me confidenciou um segredo dentro do bar 512, na Cidade Baixa, que sua ex nunca soube.

Antes das férias, a então namorada comentou que passou diante da vitrine de uma joalheria e quase escolheu alianças para renovar os votos da convivência. Ele transformou o quase em certeza. Só que estava magoado com ela, porque descobriu que sua companhia mentira durante muito tempo, logo ela que dizia não admitir deslealdade olhando nos olhos, logo ela que argumentava que mentir era pior do que agredir fisicamente.

Na véspera da viagem, ele comprou um anel de noivado vintage, de ouro branco 18k, cravejado de pedras. Experimentou no seu menor dedo, o que tinha exatamente o tamanho do dedo dela. Pois temos, entre os nossos dedos, o dedo de nossa mulher.

Demonstrava confiança que, no descanso alegre e romântico, seu par seria arrebatado pela sinceridade e corrigiria seus erros. Sem nenhuma pergunta. Sem nenhuma pressão.

Acreditava que era uma fase ruim, acreditava que ela poderia mudar, que poderia nascer de novo na paixão (a paixão é o renascimento constante do amor).

Ele carregou a caixinha preta aveludada em sua mala, escondida no forro interno. Esperava a chance de oferecer a joia e consagrar a sinceridade.

Quando ela ensaiava declarações, quando puxava o fio da memória, ele tentava criar um jeito de pegar o anel e disfarçar sua existência. Saía por um minuto e já voltava. Nunca foi tanto ao banheiro imaginário.


Carregou o anel no bolso da calça, do casaco, na sacola de praia, na capinha do celular, em todos os esconderijos, para que ela jamais descobrisse.

Sofro ao imaginar seu desgaste prestando atenção aos desdobramentos dos diálogos, soletrando a boca de sua mulher a cada frase, tentando se antecipar ao momento da confissão. Quantas vezes ele buscou o presente, eufórico, e guardou de novo, abatido? Quantas noites ele não dormiu sonhando com a reparação? Quantas vezes ele acordou, esperançoso, e se despediu do mar, amargurado? Quantas vezes pescou a sereia da transformação e não obteve o brilho da verdade?

Ao longo do verão, ele rezava em silêncio. Simplesmente porque era otimista e a amava demais. Era otimista porque a amava demais.

Mas não aconteceu um final feliz e, pior, ela mentiu de novo. E jamais se retratou. E jamais pediu desculpa.

O anel ficou como uma pérola confinada na ostra e levada para longe pela maré do infortúnio.

Não era um porta-joias, e sim um caixão. Escuro como um caixão. Lacrado como um caixão.

Um caixão pequeno para o amor imenso daquele homem.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.36
Porto Alegre (RS),  12/04 /2015 Edição N°18130

BELEZA INCURÁVEL

Arte de Óscar Domínguez

Muito fácil definir se uma mulher realmente é bonita. Ela não consegue fazer careta. Ela fracassa na careta. Ela é incompetente para o ridículo.

Não tem jeito de ficar feia. Jamais se torna caricatura.

Ela tenta assustar, e somente seduz mais.

Ela tira um Selfie para zombar de si e ninguém entende.

Ela busca se avacalhar, e somente traz um novo ângulo para admirá-la.

Pretende provocar riso e gera mais suspiros.

Range os dentes, fingi cuspir, come a paleta de ovelha com as mãos, mas nenhuma cena é nojenta, parece cada vez mais uma mulher de atitude.

Ela inventa beiço, mostra a língua, estica os olhos, e continua maravilhosa. Continua atraente. Continua poderosa. Nunca deixa de ser ela.

Existem tipos fatais, incorrigíveis, de uma beleza incurável.

São mulheres que se acham, e, por isso, transbordam.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (10/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

O MEDO DE PERDER ALGUÉM

Arte de Eduardo Nasi

Além do velho do saco, que poderia aparecer tocando a campainha se a gente não raspasse o prato ou se não dormisse no horário, havia o medo permanente da carrocinha, que levaria meu cachorro embora.

A esquina era ameaça do recolhimento dos cães.

Meu cachorro não poderia permanecer sozinho por aí, passear à toa, senão seria posto num furgão com cela, algemado e jamais o teria de volta.

A carrocinha animou meus pesadelos de pequeno. Eu suava frio, arregalava os olhos, porque os pais diziam que o motorista não tinha compaixão: “animal andando sozinho, carregava”. Ele nem procurava descobrir onde morava, não investigava seu paradeiro. E a mãe ainda vinha com o terrorismo de que os cachorros virariam sabão.

Sofria com a ameaça constante dos caçadores diabólicos das mascotes pela madrugada.

Preparei coleira para o cachorrinho, com endereço e telefone. Dava banho todo dia para que não parecesse sujo e anônimo. Explicava o caminho de casa, sempre largando ração no jardim para fixar o lugar.

Não deixava sair de perto. Observava quem abria o portão para que logo fechasse. Eu me arrepiava com cada visita e a possibilidade da porta encostada.

Protegia meu vira-lata mais do que brincava com ele.

É da infância o meu medo de perder alguém.

Carrego dentro de mim uma sensação de inesgotável vigília. Os efeitos colaterais das histórias de pequeno não terminaram na adolescência, seguiram adiante, atingiram o batimento cardíaco de homem feito.

Troquei apenas a carrocinha por outro nome. Mas não confio na rua. Dependo da proximidade para cuidar.

Peno quando meus familiares demoram a regressar. Prefiro estar longe a ficar em casa esperando – é menos tensão.

Todos os amores foram cachorros inofensivos, indefesos, vulneráveis a uma emboscada. Como se não pudessem se defender, como se não pudessem contornar as dificuldades, como se viver fosse pedir ajuda.

Não sei explicar exatamente. Fiquei sequelado pela contundência das advertências infantis.

A cada despedida de namoro, por exemplo, emergia a angústia: de que modo ela vai se cuidar sozinha? Vai dar conta dos perigos, recusar quem possa lhe fazer mal?

E perguntava se estava bem, se precisava de alguma coisa, telefonava e não me mantinha indiferente ou independente com a separação. Ainda carecia de notícias. Não me desligava completamente, até sentir que ela estava a salvo. Mas somente estaria a salvo comigo, na minha loucura atrapalhada de onipotência.

Talvez a carrocinha seja o meu pânico de virar sabão. Um herói sem missão, um salvador desempregado. Que eu termine esquecido, com o fim da espuma da raiva, e não seja procurado de volta.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
08/04/2015


UM PROFESSOR

Arte de Roger de La Fresnaye

A rotina gera acasos surpreendentes, nunca se tem a clareza do motivo de conhecer alguém, mas há um fio que liga as pessoas. Estão unidas por alguma verdade ou mentira. É descobrir com o tempo.

Nas últimas semanas, incrivelmente conheci quatro jovens, em diferentes situações, na faixa dos 19 aos 25 anos, bonitas, românticas, crédulas, e todas sofrendo por um amor que não deu certo.

A coincidência é que o algoz era sempre o mesmo. Um único sujeito. Não qualquer sujeito. Ele tinha sido professor das quatro jovens. Aproximava-se da aluna, entre tantas no auditório lotado, mostrava-se impressionado com o desempenho e inteligência, adicionava no Facebook, convidava para um café e usava a idolatria do quadro-negro e do microfone para seduzi-las.

Conversa boa, simpático, com preferências culturais consolidadas, mantinha casos com suas protegidas, sem que uma nunca soubesse da outra. Empilhava relacionamentos secretos em seu apartamento.

Ardorosas fãs de sua didática, sentiam-se eleitas pelo seu professor. A escolhida. Depois de um período, que variava de cinco a nove meses, ele se desligava das histórias e desaparecia. Bloqueava o nome nas redes sociais e prosseguia com sua caçada selvagem por novas presas.

Suas turmas transformaram-se num infeliz recrutamento de esposa e de amante. Ele chama para sair, experimenta, vê se gosta e serve, e, dependendo, até convida para morar junto.

Como não é bonito, suas candidatas deduziam exclusividade. Cada uma delas jurava que ninguém mais o queria e se cegavam para as ambiguidades e incoerências.

Nenhuma delas fez reclamação, denúncia, nada, pois continuam amando-o, dependentes de sua eterna aprovação. Ele mantém suas vítimas caladas pela esperança de um reatamento. Baseou sua vida inteira no ato serial de transar com alunas, quando estava casado, noivo ou namorando. Não foi uma exceção, exceção se perdoa, porém consolidou um método intermitente de conquista.

Há um problema sério de ética ao empregar a admiração da sala de aula para interesses pessoais. Não é pouca coisa. O professor não poderia se exceder no exercício de seu papel. É abusar de sua autoridade, tem uma influência psicológica que supera barreiras de idade e de geração.

Não há como dizer não a um ídolo, opor-se a um tutor. É o responsável pelo aluno, pago para cuidar, definido pela instituição de ensino a orientar e promover escolhas arrazoadas. Sua posição corresponde à de um segundo pai, e não poderia destinar seu poder para quem não é capaz de se defender. Significa evidente caso de assédio moral, uma desproporcional covardia. Ainda mais quando se trata de adolescentes, imaturas, com sua trajetória amorosa começando, sensualizadas pelo conhecimento, que se deslumbram pela possibilidade de estar ao lado de quem admiram e de quem era para ser um exemplo de sucesso.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 6, 07/04/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18125

O QUE NUNCA FALTARÁ

Arte de William Morris

Não posso prometer estar feliz todo dia. Não mando no meu estado de espírito. Nem sempre acordarei de bom humor. Não tenho como antecipar  disposição. Nem há como garantir que terei vontade de sair no final de semana. Não sei como estarei amanhã. Não farei fiado de risadas depois do trabalho. Não existe como me prevenir da irritação, do cansaço, da falta de esperança.

Posso ser chato, pessimista, uma péssima companhia.

Precisa entender que nem sempre estarei alegre, mas nunca deixarei de ser agradecido. Agradecido por você estar comigo, por ser seu.

Jamais faltará agradecimento de minha parte. Agradecido mesmo quando estou triste. Agradecido porque você me torna melhor mesmo quando estou na pior.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (7/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: