terça-feira, 4 de agosto de 2015

DOIS EM UM

 Arte de Gino Severini

Eu fiz faxina em casa e me paguei R$ 120,00.

Eu lavei meu carro e me paguei R$ 40,00.

Eu preparei almoço e janta todo o mês e me paguei R$ 180,00.

Eu lavei, sequei e passei a roupa e me paguei R$ 200,00.

Eu dei banho no cachorro a cada quinze dias e me paguei R$ 60,00.

As coisas andam bem complicadas. Sou o meu próprio patrão e empregado.

Meu medo não é ser demitido, é o patrão falir.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (4/8), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

RATOEIRA DO RELACIONAMENTO


Se você dedicar seu mundo inteiro a uma pessoa, a entrega poderá ser vista como submissão.

Você que está mergulhado no amor não percebe. Para você, é somente amor. Não representa obediência, escravidão, bajulação.

Não mede esforços para agradar sua companhia, para atendê-la, para fazê-la feliz.

É capaz de se endividar em segredo para corresponder suas expectativas. É capaz de omitir suas vontades para privilegiar os desejos dela. É capaz de não respirar alto dentro de casa para não atrapalhar.

Ela sabe que você é todo dela – eis o problema que também deveria ser a solução (afinal, ser todo de alguém é a premissa do amor).

Mas o alimento é a isca do veneno e você foi fisgado pela ratoeira do relacionamento: emparedado, encurralado, dependente, viciado, sem anticorpos, sem imunidade, sem defesa, preso em sua idealização.

Já se declarou ao extremo, eliminou qualquer incerteza de seu coração, assinou o atestado de óbito da solteirice.

Sua doação não impõe mais desafio, não exige a reconquista de outra parte.

Está soterrado pela própria generosidade. De tanto dar, banalizou seu valor. Sua existência ficou barata. É um precatório a perder de vista.

Diante da exposição absoluta dos sentimentos, não é de duvidar que ela esnobe suas ações, conte que você come nas mãos dela, menospreze suas inúmeras gentilezas e deboche de suas constantes delicadezas.

Tornou-se inofensivo e previsível. Assumiu o risco de ser idiota e ingênuo, fragilizado em suas conexões com os amigos e familiares, absolutamente constrangidos com sua mendicância afetiva.

Atravessa um dilema sem saída. Ela jamais entenderá o peso de suas decisões, pois não mostrou seu sacrifício dia a dia, quis fingir uma naturalidade dos presentes, mimou e escondeu o trabalho por detrás de cada gesto, apresentou uma facilidade que não existia. Assim como pode tentar efetuar uma reprise de suas realizações dentro do namoro, apresentar os investimentos feitos, justificar sua abnegação, só que será inútil, não há estorno da espontaneidade, ela dirá que você está jogando na cara o que ofereceu de estorno da espontaneidade, ela dirá que você está jogando na cara o que ofereceu de graça, que vem cobrando os juros de sua falsa bondade.

Esta é a parada mais dura do romance, não vejo conserto da situação.

Ou está numa relação em que os dois entregam tudo ou tudo o que entrega será sempre nada.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS),  02/08 /2015 Edição 18245

AMAR É MUDAR SEMPRE

Arte de Jorge Castillo

"Você está diferente?" não deveria ser uma pergunta ameaçadora na vida a dois.

Mudar é sinal de sensibilidade, é demonstração de tolerância e de humildade: o pensamento evolui, a opinião se transforma, a convivência influencia o seu comportamento.

Pior seria permanecer igual. Seguir igual é prova da mais absoluta indiferença a tudo o que se viveu dentro da relação.

Ou seja, teve filhos e não mudou nada?  Não ficou nem um pouco bobalhão com seu bebê aprendendo a falar, a caminhar, a rir dos sustos e das cócegas? 

Enfrentou alguma doença familiar e não abandonou a teimosia? Conheceu o arrependimento e não perdeu os preconceitos? Recebeu a dedicação de alguém e não se empenhou em ser mais leal?

O único jeito de não se estranhar depois de longo casamento é quando os dois mudam ao mesmo tempo. Mudar junto é amor.

Ouça comentário na manhã dessa sexta-feira (31/7), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina.


A PAREDE TEM OUVIDOS

 Arte de Eduardo Nasi

Compaixão é um sentimento que não gosto de sentir, evito sentir, me maltrata sentir.

Mas sempre vem à tona quando vejo pessoas que conversam sozinhas nas mensagens. Desenvolvem um diálogo com elas mesmas. Somos o destinatário por uma simples casualidade – elas não aguardam uma resposta. Perguntam algo e retrucam imaginando qual foi a nossa reação e continuam o papo com réplicas e tréplicas de algo que jamais respondemos.

Tenho contatos fantasmas, gente que não cansa de falar comigo não falando comigo. Não digo nada e elas vivem dizendo por mim, decifrando o meu silêncio como satisfação de voyeurismo. “Sei que adora me ver falando e falando sem parar!” E nem conheço a vivente. Surge de um inbox no Facebook. Eu me espanto que, em uma semana, já tem cinquenta blocos de texto de uma pessoa desconhecida agindo com falsa intimidade, com todos os parágrafos dirigidos para mim ora me elogiando, ora me insultando, ora agradecendo a minha mãe pelo meu nascimento, ora encomendando meu vodu. Torno-me endereço platônico de sua vida vazia e de sua falta de amigos.

Não há como acalmar dizendo qualquer coisa ou atendendo alguma das interrogações. São missivas insaciáveis. É ausentar-se um minuto e estão denunciando abandono ou reclamando que “diante da indiferença, não vão mais incomodar”. E logo incomodam com mais empenho e vontade, contrariando suas conclusões anteriores.

Na minha infância, louco era o que falava sozinho nas ruas. Gritava e cantava sem nenhuma interlocução, recitando seus pensamentos desordenados, impondo seus desatinos em voz alta pelas praças e bares. Existe uma outra loucura contemporânea, agora digital, de quem fala sozinho nas redes sociais e aplicativos. Escreve por dois solitariamente, compulsivamente, ansiosamente.

Adoeço de pena. Não sei como ajudar.

Lembro que minha mãe sempre pedia para um dos filhos lavar a louça, todos se disponibilizavam, só que ela jamais esperava dez minutos após a refeição para que um de nós cumprisse a tarefa prometida. Chegávamos na pia e estava tudo lavado e ainda lamentava: – É que demoraram!

Não respeitava o tempo de cada um. Acho que ela queria mesmo contar com o prazer de se elogiar nos usando como paredão.

Assim é que identifico a troca unilateral de mensagens: acabo sendo a parede que escuta. A minha ausência faz com que o outro se perceba mais presente.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 29/07/2015

NÃO DEIXE DE IR

Vejo o enterro como uma majestosa sessão de cinema.

Cada um que entra no velório é um derradeiro espectador de uma vida.

De uma vida que não irá se repetir.

Manteremos o respeito dos trajes negros e dos gestos comedidos para homenagear um idioma que se extingue, um jeito de falar que desaparece, um modo de amar que some do convívio.

Não há como não ser inesquecível. O cenário nos remete às salas antigas de exibição: o tapete vermelho e as cadeiras ao redor do caixão. É sentar e lembrar as principais cenas de uma longa trajetória.

Não se nasce impunemente, assim como não se deve morrer no esquecimento.

A despedida não traz apenas tristeza, mas uma confusão de sentimentos envolvida no olhar profundo. Saímos da pressa do presente, ausentamo-nos das obrigações e dos compromissos para eternizar o que o outro representou em nosso passado. O ritmo lento da recordação encharca os olhos. Não é mais o rosto que carrega a lágrima, é a lágrima que carrega o rosto.

A música composta de soluços, cumprimentos e sussurros ao fundo lembrará o piano dos filmes mudos. O batimento cardíaco é o nosso pianista.

Não há superfície que nos separe da sensibilidade das coisas. Não há pele nas palavras. Não há proteção para os ouvidos.

Ficaremos leves repetindo incessantemente os pêsames.

Apesar da dor, não podemos desperdiçar o momento, não podemos renunciar à chance de falar o que sabemos e abraçar os espectadores. É acrescentar um capítulo inédito ao romance.

Não importa quem conheceu mais ou menos o falecido, quem era mais próximo ou mais distante. O fim torna qualquer um íntimo. Todos têm o ingresso para a saudade.

Trata-se de um momento fundamental, o de montar o copião de uma biografia.

Ouvir as histórias alheias e dar-se conta de que não conhecíamos tudo.

Descobriremos um novo lado, uma nova personalidade daquele que partiu.

Talvez desvendar que um homem sério também era divertido, que uma mulher introspectiva também era apaixonada.

Filhos ganham versões diferentes dos pais, esposas têm a surpresa das palavras ditas aos amigos, maridos recebem recordações antes do namoro.

Os mistérios serão solucionados, os passatempos serão denunciados, os traumas serão desfeitos.

Os familiares emendarão, em ordem cronológica, fotograma por fotograma da infância, da adolescência, da maturidade e da velhice de seu parente findo.

As festas de aniversário de uma pessoa estarão reunidas numa só celebração.

O enterro é uma ilha de edição, onde se juntam fragmentos dos contemporâneos, relatos de interessados, causos dos colegas, com o propósito de resumir e entender o significado de uma alma.

Não deixe de se despedir de um amigo. Será a última e, ao mesmo tempo, a primeira vez que assistirá a uma vida por inteiro.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  28/07/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18240

domingo, 2 de agosto de 2015

CASUALIDADES PREVISÍVEIS

Arte de Dominique Appia

Há casualidades previsíveis, regras imutáveis da natureza. Melhor aceitar.

Para a mulher com medo de barata, o inseto surgirá quando estiver sozinha em casa.

Só faltará gás no meio da preparação da janta. Não dá para terminar a comida e nem jogar fora. Assim como passou da meia-noite e é tarde para chamar um entregador. E também não tem mais como pedir comida por telefone.

O chuveiro apenas quebrará no dia em que você não tomou banho de manhã e retornou tarde da noite.

A fila do seu lado no mercado andará mais rápido.

É só lavar o carro que chove.

Você carregará seu celular em trânsito numa tomada que não funciona.

A entrega do armário, prevista para cinco dias, atrasará um mês.

Sempre que você compra uma roupa muito desejada entrará em liquidação na semana seguinte.

Você gastará numa reforma o valor de seu imóvel.

Se a prova está fácil demais, você tem grandes chances de tirar nota baixa.

Quando estreamos um molho de chaves, a chave certa é a última a ser testada.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (28/7), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

sábado, 1 de agosto de 2015

QUANDO NEVAR EM PORTO ALEGRE


Todos os amigos e familiares me questionam quando voltarei a sair, a aceitar convites, a me alegrar, a oferecer chance e paciência para outras mulheres.

Todos me perguntam quando desistirei de amá-la, que já passou o tempo de luto, que está na hora de encontrar alguém, que venho exagerando na cena e no drama, que é patético sofrer platonicamente na minha meia-idade.

Eles pedem uma resposta, eu dou: somente não vou mais amá-la quando nevar em Porto Alegre.
Antes, nunca. Não mudo de ideia com tempestade de granizos, furacões, tornados.

Porque somos raros como a neve na capital gaúcha.

Deixarei de amá-la só quando Porto Alegre amanhecer coberta de branco. Coberta totalmente. E que não seja a neve granular de 1879, 1910, 1994, 2000 e 2006. E que a geada seja mais longa do que os trinta minutos de 1984, que dure algumas noites e alguns dias, que amplie o nosso entendimento do silêncio e da solidão, que aumente a gramatura da saudade e do suspiro.

Eu desistirei de nosso amor quando enxergar o viaduto da Borges coberto de branco, o Parque Marinha do Brasil coberto de branco, os telhados do Menino Deus cobertos de branco.

Só quando as torres e a cúpula da Catedral Metropolitana trocarem a brancura cinzenta das pombas pela palidez do nevoeiro.

Só quando as cerejeiras e os plátanos penderem folhas de cristal e vidro em seus galhos.

Só quando a dupla Gre-Nal cancelar os jogos no Beira-Rio e na Arena pelo mau tempo.

Só quando suspenderem os passeios de pedalinho no lago da Redenção.

Só quando o Guaíba congelar suas margens. E o crepúsculo pedir emprestado vermelho para as nuvens.

Só quando as crianças escreverem palavrões de gelo nos para-brisas dos carros.

Só quando os pais emprestarem suas mantas para os bonecos de neve dos filhos.

Só quando não decifrar meio palmo em minha frente no momento de sair de casa.

Só quando uma vassoura não for suficiente para limpar a entrada das garagens.

Só quando tiver a obrigação de me segurar nos corrimões das escadas para não escorregar.

Só quando tivermos compaixão do guarda-chuva e das galochas.

Eu abandono o nosso amor quando nevar em Porto Alegre. Antes, nunca.

Só vou deixar de amá-la quando Porto Alegre estiver coberta de branco.

Quando Porto Alegre virar a minha noiva, e daí a minha dor casará para sempre com a minha cidade.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS),  26/07 /2015 Edição 18238

SEMANCOL

Arte de Hans Arp
 
Mais importante do que definir o nosso talento, é também descobrir o que não devemos fazer.

O que não temos mesmo o dom. O que seria patético tentar e insistir.

Antes que seja tarde. Antes de envergonhar a família e abusar da boa vontade dos amigos.

O pior sujeito é o que pensa que pode tudo. Não tomou um semancol e sifragol na infância. Guarda a impressão de que é capaz de  aprender qualquer coisa.

Não, não é verdade, só existiu um  Leonardo da Vinci.

Há coisas que você não dominará. Precisa aceitar a sua incompetência.

Há homens que nasceram para pilotar um fogão, mas serão péssimos motoristas. Há mulheres que nasceram para interpretar no palco, mas serão péssimas escritoras.

Eu, por exemplo, não tenho condições de cantar. Sou desafinado. Nem em karaokê. Muito menos me arrisco sozinho no chuveiro. Não é porque falo na rádio que desfruto do direito de soltar a voz.

Conhecer os limites é uma vantagem.

Ouça o comentário na manhã dessa sexta-feira (24/7), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


FALSAS AMEAÇAS

Arte de Eduardo Nasi

A imobilidade é um grande passo no relacionamento.

Confie mais no silêncio do que naquilo que você ouviu. Garanto que dá certo.

Estará encrencado na hipótese de realizar ao pé da letra o que escuta.

Desconfie do que vai sendo dito na raiva ou no deboche. Busque descobrir o sentimento por detrás da frase.

Na dúvida, não se mexa.

Quando sua esposa manda “Vá sem mim”, já furiosa ao experimentar a enésima roupa, não invente de atender ao apelo.

Não seja idiota de sair porta afora. Muito menos conforte com aquela sabedoria de maçaneta, apenas sente no sofá e espere.

Não é encenação, mas ela não deseja isso. Vê o delicado paradoxo: é uma verdade somente sentimental.

No instante em que terminar de se arrumar, no seu tempo infinito, no tempo que não levará em conta o horário de um compromisso, ela surgirá silenciosa e segura, como se nada tivesse acontecido.

E nada aconteceu depois que tudo foi posto para fora. E tudo continua acontecendo quando nada é declarado.

Falar elimina a confusão para a mulher. Não falar cria perigosa culpa. Mas precisa falar e sem nenhuma interferência, o que é importante saber.

A mesma reação impassível deve adotar quando ela esbravejar “vá comer uma puta”, diante de sua insistência por transar. Não siga o conselho, é fria, a fidelidade nunca será cafetina.

Ela simplesmente vem pedindo espaço, que não fique perto, por cima, pois a intimidade cansa. Não é falta de amor ou de atração, é irritação momentânea.

Não julgue como uma sentença definitiva. Não comece a fantasiar putarias, por mais que lhe cresça a vontade e queira chamar os amigos para festejar o passe livre.

Ela não aguenta ser pressionada no trabalho, na família, e agora no sexo. Relaxe, assista a tevê, leia um livro, que ela virá despretensiosamente, dona de si.

Tampouco acate se ela ordenar “vá morar com a sua mãe”. Não pense que é uma grande ideia, não prepare as malas, não sinta saudade da superproteção materna, de comida e roupa lavada.

Acreditar em sua mulher é também não acreditar sempre.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 22/07/2015

BANALIDADES ETERNAS


Você esqueceu o tamanho de sua vida? Largue o Facebook e sua linha cronológica. Apague o celular e o laptop, desligue-se da virtualidade e das imagens editadas e com filtro.

Precisa do brilho da poeira voando, da companhia dos ácaros e das traças. A alergia é prova do retorno ao passado. O espirro é o nosso túnel do tempo.

Vá até a garagem ou o quartinho ou o alto de um armário ou debaixo de sua cama, onde esconde as tralhas de seu passado físico. O passado de papel e de objetos, o passado de fotos, canetas coloridas e medalhas de latão. Tem que enfrentar o trabalho de abrir caixas fechadas, romper a fita adesiva com estilete e lamentar o elástico das pastas estourando.

Mexa nos cadernos da escola, acompanhe a mudança de sua letra, o quanto era caprichada no Ensino Fundamental e ganha contornos de euforia, rebeldia e pressa. Começa emendada e submissa, em seguida vira separada e caixa alta, sem respeitar mais nada, nem pai, nem mãe, muito menos vírgula.

Duvido que não se emocione. Soltará uma gargalhada de saudade ao reencontrar o rabisco de algum colega no forro da capa dura. Como existia valor naqueles recados de amizade eterna vencendo o nosso tédio nos dois períodos de matemática na segunda-feira de manhã! Ninguém merecia despertar fazendo cálculos. Lembrará que já foi muito amado. Lembrará as provas difíceis que enfrentou afixando fórmulas pelas paredes do quarto. Achará guardanapos de bares, figurinhas avulsas de álbuns, letras de canções em inglês traduzidas grosseiramente e sinopses de filmes. Observará o mundo em miniatura com atenção extrema, respirando devagar, buscando reconstituir o tempo de suas escolhas e o ineditismo de suas descobertas. Vários rostos dedilhados serão novamente atuais.

Concluirá, estranhamente, que nenhuma lembrança morre na data que aconteceu. Emocionado, quase chorando, não se contém de vergonha e se repreende em voz alta: – Era o que faltava, virar poeta depois de velho.

Do fundo das caixinhas de CDs e fitas cassetes, puxará um envelope perfumado com uma carta de amor. Escrita por namorada da escola, no instante em que ela rompe o namoro de dois anos.

– Por que você conservou esta tristeza?, – pergunta a si mesmo. E logo responde: – Para rir dos próprios dramas, só pode ser.

Você jurava que morreria, que se mataria, que nunca amaria de novo naquela época. E sobreviveu e recuperou o coração e amou tantas e tantas outras vezes.

É bom testemunhar as suas promessas sendo quebradas, as suas opiniões mudando, os gostos se transformando radicalmente, que nada é definitivo e tudo é eterno.

Não perceberá que está há mais de quatro horas sentado no chão e revirando coisas antigas. Não viu o tempo passar. A gente nunca vê o tempo passar. Mas é ele que nos olha e nos guarda.







Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  21/07/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18233