quarta-feira, 16 de abril de 2014

SIRVAM NOSSAS FAÇANHAS DE MODELO A TODA TERRA

Arte de Eduardo Nasi

O gaúcho é o único terrorista autorizado. O único terrorista aceito pela ONU. O único terrorista sociável. O único terrorista de cara lavada e CPF desimpedido. O único terrorista que não é obrigado a se esconder, muito menos negar sua origem.
 
O único terrorista que é incentivado a abrir células — CTGs — em tudo que é parte do planeta, até no Japão, e não ser malvisto, fichado, perseguido.
 
Ele espalha sua crença, suas convicções, com imensa alegria. Nas escolas, nas creches, nos hospitais. Não tem nenhuma necessidade de deixar a barba crescer, falsificar passaportes, usar disfarces e fazer plástica.
 
O gaúcho é o único terrorista livre do mundo.
 
Pode erigir estátuas homenageando seus líderes, pavimentar ruas destacando seus guerreiros.
 
Pode soltar apelos de guerra em praça pública com direito a banda e microfone: “Não podemos se entregar pros home / Mas de jeito nenhum amigo e companheiro / Não tá morto quem luta e quem peleia”.
 
O gaúcho pode, inclusive, andar estranho, de pilcha e bombacha, e não ser discriminado.
 
É o único que pode gritar o hino no estádio e não ser chamado de separatista.
 
É o único que comemora o início da revolução, não o fim da revolução, e não ser visto como insurgente pelo resto do país.
 
É o único que pode declamar versos chulos, e jamais ser identificado como tarado e bagaceiro.
 
No fim das contas, o gaúcho é o único que pode entrar num avião com bomba e erva e não sofrer represália. Alguém mais pode?
 
Ninguém!, só o gaúcho desfruta desse privilégio.
 
E não será barrado no detector de metal e na alfândega.
 
E não será encaminhado para interrogatório em sala fechada.
 
E não será preso por alguma autoridade.
 
E não será extraditado.
 
Ainda receberá cumprimentos e apoio dos guardas, do comandante, das aeromoças, dos passageiros. Terá a simpatia bondosa das crianças, a curiosidade carente dos velhos.
 
Na aeronave, é capaz de desentupir a bomba com a maior tranquilidade, na frente de todos, sem suar frio ou se recolher ao banheiro.
 
É capaz de desempacotar a erva, soprar os farelos e sugá-la com a serenidade lenta de seu pulmão.
 
O gaúcho é o sonho de civilização de qualquer terrorista.
 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

quinta-feira, 10 de abril de 2014

REPARTINDO O PÃO, ME REPARTINDO AO PÃO

Arte de Kitaj

Eu jamais dou mordidas no pão de queijo. 

Nunca levo o pão de queijo direto para a boca, como costuma acontecer com a maioria dos fiéis da receita de Minas Gerais. 

Meu hábito é tirar nacos com os dedos e comer um pouquinho de cada vez.

Eu vou abrindo o pão de queijo em pedaços e levando aos lábios devagar. 

Aprecio dividir o calor do polvilho, enxergar o coração branco pulsar na pele e mastigar com calma.

Parece que rende mais. Parece que tenho mais disponibilidade e que não sou vítima da pressa. 

Transformo um pãozinho em mesa das mãos.  

A mania não é de agora. Vem de uma lembrança. Vem de um tempo paterno, sem garfos e facas. Vem de um tempo cheirando a balões de gás, picolés e pipoca doce. 

Eu incorporei o costume das idas à praça, quando levava meus filhos a passear e oferecíamos comida às pombas. 

Despedaço o pão como quem irá jogar farelos para as aves. 

Já passaram dez anos desde a última vez que fiz esse gesto, só que o gesto continua em meu sangue.

Não há balanços, gangorras, escorregador, minhas crianças cresceram, e prossigo cortando o pão com as unhas como se fosse distribuir ao solo.  

Como se fosse ainda reunir uma porção de bicos próximos aos meus sapatos.

Como se fosse atender a fome do céu e a necessidade de chão de meus pequenos. 

Permaneço reproduzindo aquele ato de singela paciência, aquele ato de despojada generosidade.  

Não tem jeito de alterar a conduta, estou livre de qualquer ânsia, predomina em mim um cuidado de piquenique, o lento ritual das antigas manhãs ensolaradas.

Não é mais somente um pãozinho de queijo, mas meus filhos, os brinquedos, a migração da infância habitando seu recheio. 

Ao dividir o miolo, sempre serei uma família e o centro de um parque. Eu me divido para meu passado. Presto homenagem a minha memória. 

Ou talvez, envelhecendo, esteja realmente virando um passarinho. Um passarinho de minhas crianças. Um passarinho barbudo, de olhos imensos e pernas finas. 

E arremesso as migalhas para mim. E alimento sem querer o voo da paternidade. 


Revista Pais & Filhos
Coluna Luneta Mágica, p. 76
Ano 45 Abril de 2014

A MÁQUINA RECEBE PRISCILA FANTIN


Meu programa A MÁQUINA, da TV Gazeta - Oficial, completou a centésima entrevista em dois anos de atividade. 

Para a edição especial, recebi Priscila Fantin.  A atriz, que ficou quatro anos afastada das novelas, conta que nunca quis ser famosa, e crítica a condição de celebridade. Revela que sofre com o fato das pessoas acharem que ela é apenas bonita. 

Casada há quatro anos, Priscila confessa que, quando conheceu Renan Abreu nos ensaios de uma peça de teatro, não simpatizava com ele. "Mistérios do amor. Achava meio esquisito, muito arrogante. Foi um vilão que me conquistou", ri. 

Em 100 programas, ‘A Máquina’ já sabatinou os mais diversos convidados, como Ronaldo Fraga, Jean Wyllys, Lenine, Danilo Gentili, Carlos Nascimento, Eduardo Suplicy, Mauricio de Souza, entre outros.  

Assista minha conversa com Priscila, que foi ao ar na noite de terça-feira (8/4) :


segunda-feira, 7 de abril de 2014

SOU ESTRANHO - FEIO É PARA AMADOR

"Mulher prefere a estranheza. A estranheza é masculinidade. Ter algo fora do padrão seduz, intriga, é um convite para o inesperado."

"Mulher quer que o homem fale bonito. A voz do homem é seu rosto."

"Mulher é rádio. Homem é televisão."

Veja minha divertida participação no programa Encontro com Fátima, da Rede Globo, na manhã desta segunda (7/4):


http://globotv.globo.com/t/programa/v/carpinejar-assume-eu-sou-estranho/3264631/

sábado, 5 de abril de 2014

JOGANDO AMARELINHA


Se amor fosse por afinidades, estaríamos resolvidos. 

Se amor fosse por semelhanças, estaríamos tranquilos. 

Se amor fosse por amizade, estaríamos calmos.

Mas amor não é feito de razão, não é uma decisão, não é uma escolha consciente. 

Amor é um tormento, um redemoinho de pássaros, uma inquietação espantosa. 

Não há como estabelecer: vou amá-lo, vou amá-la, apesar de ser a pessoa ideal para estar conosco. 

As pessoas ideais jamais são amadas. Elas são desejadas, mas não amadas. Elas são admiradas, mas não amadas. 

Não há como se convencer de que se gosta de alguém, infelizmente, assim seria mais fácil.

Ama-se quem a gente menos espera, quem mais nos surpreende, quem mais nos irrita, quem mais nos desafia.

O amor é do contra, o amor é oposição, o amor é uma insegurança atenta.

Amor é a primeira vista ou não é amor - paga-se com a vida antecipadamente. Não é parcelado, não é um costume agradável. 

O amor não vem com o tempo, fecha o tempo.

Pode se apaixonar, pode ter arrebatamentos, atração, gana de ficar, mas amor mesmo é fulminante desde o início e sempre. 

Não é uma negociação, não é uma definição pelo melhor. É uma imposição química, emocional, seja como for. 

Amor não é dote, não é indicação de pais e amigos, não é perfil equilibrado. É um erro inspirado. Aquele que erra ao amar acerta o amor. 

Por isso, é tão difícil amar. Por isso, é tão difícil deixar de amar. 

Amor não é caminhar na chuva, é ser sorteado pelo relâmpago.

Talvez encontre alguém que adore conversar, adore transar, adore estar junto, mas não significa que amará. Os dias felizes serão agradáveis, os dias tristes serão agradáveis, mas não será suficiente. Faltará aquela intensidade explosiva.  

Com o amor, talvez brigue na hora de conversar, na hora de transar, na hora de estar junto, só que se enxergará inteiro como nunca, porque tudo faz sentido na falta de sentido, tudo é o dobro de ardor. Os dias felizes serão os mais felizes, os dias tristes serão os mais tristes. Não terá a mornidão, a neutralidade, o purgatório. 

Amor é extremo: céu ou inferno. O jogo da amarelinha é feito de pedras, não de flores. 

Amor é contundência implacável, não é adiamento e concordâncias. 

Ou você acredita no amor ou confia no amor. São duas posturas distintas. 

Quem acredita no amor não ama, tem vontade de amar, faz uma volta ao mundo para se convencer que está amando, é capaz de fingir ou mentir para si que está amando. No fundo, sabe que está sozinho, que vive racionalmente, que tem o domínio da situação, que tem condições de sair da relação a qualquer momento e não sofrerá absolutamente nada. Acreditar no amor é forçar o amor. Inventar o amor. Forjar o amor. 

Já confiar no amor é quando não temos mais controle sobre o próprio sentimento: a mera possibilidade de uma separação é devastação. Confiar no amor é aceitar o amor. Obedecer ao amor. Sofrer com o amor. 

Quem acredita no amor vive se explicando. Quem confia não precisa nem de explicação: o amor é uma realidade incontornável.


Publicado na Revista Isto É Gente
Abril de 2014 p. 54
Ano 14 Número 707
Colunista

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A MÁQUINA RECEBE NANY PEOPLE

Nany People nasceu em Minas Gerais, é atriz, humorista e transexual.

Ela foi minha convidada em A Máquina, onde fala que a adolescência foi o pior período da sua vida e aos 16 anos não se matou por causa da mãe.

A exibição do programa aconteceu na terça (1/4), na TV Gazeta, às 23h30.

terça-feira, 1 de abril de 2014

MEU AMOR

Arte de Giacomo Balla

Todo mundo repara ou lembra quando empenhou a primeira vez eu te amo numa relação.

Qual o momento exatamente. O dia, a hora, os minutos. Após o sexo, embevecido. Ou no cinema escorregando as palavras num beijo. Ou antes de um aceno ao trabalho.

Aquele eu te amo que rodopiou na garganta até ganhar a forma da boca. Aquele eu te amo que fora ensaiado em diversos momentos de alegria, e recuou por vergonha.

Quando ele vem, é um balbucio: estranho, inseguro, desajeitado como um pedido de desculpa.

Sim, o primeiro “eu te amo” é um pedido de desculpa:

– Desculpa, eu te amo.

– Desculpa, eu me ferrei.

– Desculpa, não quis, só que aconteceu.

O primeiro eu te amo é uma série vitoriosa de fracassos. Fracasso da amizade (não consigo ser mais seu amigo). Fracasso da independência (não consigo mais viver longe de você). Fracasso da mentira (não consigo mais mentir para você).

A declaração aparece tímida. Temos que sempre repetir – este é o constrangimento. O primeiro eu te amo nunca é ouvido. E ainda enfrentaremos a pergunta desconfiada de nossa companhia: “O que você disse?”.

Ai, como é sufocante. Muitos mentem e, já acovardados, não insistem. Expor o eu te amo parte de uma tontura, repetir é embriaguez.

O primeiro eu te amo surge com voz de adolescente, aquele timbre indefinido, arenoso: metade infância, metade adulto. Soprado, sussurrado, comovido.

É um caminho sem volta. Um desabafo que se consome em decisão e que se impõe como destino. Depois não tem como alegar que errou, que se confundiu, não há retratação possível, seu advogado não poderá construir nenhuma versão convincente para desfazer o mal-entendido.

Mas o primeiro eu te amo, ainda que represente uma estreia da vida a dois, é discreto diante de outro movimento dos lábios que costuma passar despercebido.

Quando chamamos o nosso par de “Meu Amor”. Quando personificamos o Amor.

Quando ele deixa de ser um nome, alguém, para ser o nosso próprio sentimento.

Quando abandonamos seu registro, seu batismo, para tratá-lo como se fosse a nossa emoção encarnada.

Não tem como consertar, a projeção virou realidade. É quando realmente confiamos nossa individualidade.

É amor para cá, é amor para lá, é amor para acordar, é amor para dormir, é amor para pedir qualquer coisa, é amor no e-mail, no telefone, nos cartões. É amor amor amor infinito, dobrado, multiplicado, incansável.

Está feito o estrago. Se nos despedirmos, se nos separarmos, não estaremos nos afastando de uma pessoa, e sim do Amor.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 1/4/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17750

segunda-feira, 31 de março de 2014

VOLTAS NAS PERGUNTAS

Tente resolver as questões amorosas.

O que é a sua voz e o que é eco do relacionamento?

A rotina do casal atrapalha a individualidade?

Veja DRnaTV, que foi ao ar na terça (25/3), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz.

CHORE POR MIM ARGENTINA!



Tinha esquecido o que é pisar em cocô de cachorro até visitar Buenos Aires.

Era atalhar a praça: pisava na m. Era descer do carro: pisava na m. Era atravessar a rua: pisava na m.

Quando vi placa de não pise na grama entendi como ironia. Não pise no cocô da grama. A grama é a última visita dos meus calçados.

Passei noites escovando meus tênis em baldes, enfrentando a repulsa de tirar a porcaria dos frisos.

Ninguém merece lavar as solas no tanque. Uma escovinha jamais resolve, é preciso partir um prendedor e cavar os resquícios em linhas horizontais e verticais. Serve faquinha velha, desde que não reponha na gaveta.

É o equivalente a jogar um cubo mágico com a nojeira. Mexer o quadrado de um lado e de outro. O nariz desaparece para não influenciar a boca.

Fui figura desagradável em vários momentos portenhos. Entrava em espaços fechados (teatro, livraria e cinema) e alguém gentilmente me informava que não cheirava bem.

Abortei sessões pela metade, frustrei passeios, incomodei a família com desengonçado tango.

Estava desacostumado. Foi quando percebi o quanto Porto Alegre evoluiu nos hábitos.

Recebi aquela saudade boa, que vem do orgulho.

Eu não mais atolo meu pé em nenhum cocô de cachorro na minha cidade. Faz muito tempo. Quase uma eternidade.

Na minha infância, ir para a escola consistia num caminho com obstáculos. Não havia chance aos distraídos. Observava a lua se despedindo do céu e já pagava o pedágio do chão.

Derrapava em dois cocôs por semana. No mínimo. E muitas vezes de chinelo, com a matéria gosmenta e viscosa atingindo os pés. Outras vezes, encardia o cadarço, spaghetti al sugo.

Nada disso mais acontece. Os donos dos cães porto-alegrenses modificaram radicalmente sua conduta. Civilizaram as calçadas. Recolhem as necessidades de seus cachorros no ato. Todos passeiam com uma sacolinha plástica. Quem esquece é malvisto pelo bairro, banido moralmente das redondezas. Existe uma fiscalização sutil, uma educação de respeitar o próximo, de poder sonhar livremente com poemas e suspiros sem se importar em tropeçar nos contratempos mundanos.

Minha mãe sempre me consolava dizendo que pisar em cocô de cachorro significava sorte. Prefiro ser azarado a ser argentino.

  

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 30/03/2014 Edição N° 17748

sexta-feira, 28 de março de 2014

DIFICULDADE TELEFÔNICA

Arte de Mike Worrall

Homem não consegue conversar ao telefone e atender qualquer pergunta de sua mulher ao mesmo tempo.

Ele se perde todo, fica desequilibrado. Gagueja.

Se a mulher começa a fazer um gesto, ele salta o tom de voz, escorrega no silêncio, entra em parafuso, em estado de furadeira.  Esquece o que tinha para dizer.

Homem sempre acha que está cometendo algo errado - é sua esposa fazer uma menção com as sobrancelhas ou parar em sua frente e ele cai em pânico. Broxa. Apaga o motor do timbre. Não toca a ligação para frente. Parece que foi desmascarado, que falou uma bobagem e ela ouviu. E agora terá que enfrentar uma discussão de relacionamento.

Homem não consegue manter duas conversas ao mesmo tempo. É obrigado a desligar. É obrigado a saber primeiro o que ela deseja.

Ele fica constrangido com alguém mandando nele. O problema do homem não está em ser mandado, mas que os outros descubram que ele é mandado.

A mulher sim, a mulher pode ser interrompida enquanto conversa ao telefone e não terminará nem um pouco constrangida. Nasceu com o telefone na orelha. O telefone para a mulher é um ponto. O telefone para a mulher é um brinco.

Não se sentirá ofendida. Pode brincar com a mímica do marido. Pode rir  de sua presença incômoda. Ou colocar o fone para o lado e perguntar: - Por que está me incomodando, hein?

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (28/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: