sexta-feira, 21 de novembro de 2014

SÃO LONGUINHO

Arte de Jesús Carles de Vilallonga

6 senhas bancárias pessoa física e jurídica
3 senhas de cartão de crédito.
4 senhas de jornais
1 senha do clube
1 senha da academia
1 senha da net
3 senhas de e-mails
2 senhas de Facebook
1 senha de Instagram
1 senha de Twitter
1 senha do celular
1 senha do alarme do prédio
1 senha de Skype
2 senhas de computadores
2 senhas de companhias aéreas
1 senha do ID celular
1 senha do plano de saúde
2 senhas do acesso para empresas
4 senhas de assinaturas de sites

Um adulto hoje bem informado e tecnológico terá no mínimo 25 senhas. É uma avalanche de números. Torna-se uma fórmula matemática ambulante, uma equação da relatividade com pernas.

Já acho que não sou um homem, mas um cofre. Eu tenho 38 senhas com as mais variadas e estranhas combinações. Como vou memorizá-las? Como não posso anotar para não facilitar o extravio, como não posso usar a mesma por questão de segurança, como não posso recorrer às datas de aniversário para não ser descoberto fácil, preciso ser um poço sem fim de criatividade.

Mas não tem jeito. Faço uma nova senha porque não me lembro da anterior e muito menos da dica que deixei para ajudar a memória. A dica parece ainda mais absurda. Tipo: elefante. Elefante o que cara-pálida? Na hora, eu jurava que recordaria com facilidade. Só me complica. Crio a senha tentando ser esperto, passa um tempo e logo me esqueço.

Acordo e durmo rezando para São Longuinho. Estou cansado de pular três vezes e gritar o nome do santo. Nem ele me agüenta mais.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (21/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo:



GAIOLAS DE PÃO

Arte de Eduardo Nasi

O pão francês consagrou a solidão.

Ao ser vendido por unidade, tornou-se a glória dos solteiros. Não precisávamos mais nos preocupar com a família na hora de comer.

Podia-se comprar um ou dois pãezinhos, de acordo com a nossa vontade, e não sobraria nada.

Foi a independência da fome, o descolamento do apetite do planejamento coletivo.

Morreu o aviso da passagem na padaria. O produto dispensava, inclusive, a faca, acabara o ritual das fatias e de se importar com o outro.

Na minha infância, não tinha nada de isolar o pão do resto da turma. Só se vendia de meio quilo ou 1/4. Pedia acompanhamento, partilha, generosidade.

Cortar o pão correspondia a pensar no pai, na mãe, nos irmãos.

A família morava dentro do pão. O ideal de família grande.

Aprendia-se a fatiar de modo idêntico, para ninguém ser beneficiado com mais miolo ou mais casca.

Cuidava para não rasgar a folha vegetal que embalava o produto com os dentes da faca, pois sempre servia para desenhos ou anotações de última hora.

O papel cinza do pão e o papel de seda azul da maçã constituíam a papelaria predileta da nossa cozinha, guardados na gaveta como fortuna para prováveis pacotes.

Aliás, induzido pela etiqueta “Manzanas de Argentina” nas caixinhas de maçãs vermelhas, eu mantinha a ideia extravagante de que todas as maçãs do mundo vinham da Argentina, de que Adão e Eva eram argentinos, de que o pecado era argentino, de que até a serpente era argentina.

O barbante amarrado pelo padeiro agia como um lacre de segurança, para ver se os compradores — nós, crianças! — não caíam em tentação e não furtavam pedaços antes da hora.

Ao chegar em casa, o nó intacto do embrulho provava que a mercadoria tinha sido preservada da gula e da injustiça familiar. Havia táticas para burlar o sistema, porém muito arriscadas e que podiam resultar em castigos no quartinho escuro.

No jantar, contava-se o que cada um comia, a parte mais divertida do entardecer. Criávamos um placar caseiro, onde nos provocávamos e censurávamos o próximo.

“Já comeu sua parte, devolve!”: a  frase preferida da turma. Havia um prazer indescritível em fazer flagrante e repreender o irmão.

O pão inteiro possibilitava uma proximidade que não existe mais.

Hoje, unitário e conservado em saquinhos, inspiram o abandono da mesa.

Aqueles pães engaiolados no saco transparente me despertam compaixão. Pássaros de trigo mudos. Sem o alarido da disputa dos farelos.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
19/11/2014


MEUS OLHOS SUJOS

Arte de Francis Picabia

Ela sempre reclamou que eu não sabia tirar as remelas quando despertava.

Eu era capaz de passar o dia, mesmo tomando banho, mesmo lavando o rosto, com os ciscos nos cantos.

Quarenta e dois anos e os olhos sujos do sono, os olhos imundos do sonho.

Não entendia como eu não tinha paciência para esfregar os dedos nas pontas e remover o que não dependia de esforço.

Permanecia com o rosto desobediente, aparvalhado, de menino acordando às pressas para a escola. Será que ninguém me ensinou? Será que não consegui aprender?

Não raspava os pratos na mesa, assim como não raspava o fundo dos olhos. Este era eu.

Quando nos separamos, eu me arrependi do que não insisti em ouvir para entender.

Foi quando escutei o seu choro na sala.

O choro derrotado de quem tentou salvar de tudo que é jeito a relação, e nada mais mudaria minhas certezas.

Ela não chorava como uma mulher, não chorava como uma adulta, não chorava como já tinha visto, apesar de fazê-la infeliz várias outras vezes.

Ela chorava como uma criança, um timbre infantil agonizando no fundo de sua voz madura. Era o choro que chorava, não alguém chorando.

Como se houvesse uma criança trancada no quarto das lágrimas, pedindo para sair, esmurrando a porta das faces.

Ela se dobrou numa almofada, as costas contraídas, envolvida no espaçar mínimo de grito e resmungo, característico de uma menina. Uma menina de luto. Uma menina cansada do luto.

Ela não uivava como um animal encurralado, não gemia como uma desiludida, não chorava cantando como a angústia pede, não forçava a passagem da correnteza com o soluço, não exagerava na cena.

Natural, espontânea, desafinada, com sua pureza renascendo do sofrimento.

Ela era uma menina desesperada, uma menina repentinamente órfã, uma menina correndo mais rápido do que o pranto.

Seu tom plangente doía em meus ouvidos, perturbava, como arranhões no vidro com as unhas.

Num sacrifício desmedido, ela me oferecia sua infância. A vulnerabilidade total de seu corpo, a grandeza de sua pequeneza. Entregava seu medo de dormir no escuro, de ficar sozinha de novo, de não ser aceita. A injustiça do mundo que uma criança, desde cedo, pressente com toda a sinceridade.

Não me contive, e chorei junto.

Foi seu gesto de adeus. Ela retrocedeu no tempo de sua dor para se tornar uma menina e amar o menino que fui.

As lágrimas levaram minhas remelas.

Enfim, poderia ser adulto. Meus olhos hoje estão limpos e, em compensação, muito mais amargos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 18/11/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17991

PAI-FILHO, AVÔ-NETO

Arte de Otto Briese

Conversava com meu filho enquanto o levava para escola.

Ia explicando que no supermercado não havia sacola de plástico, mas de papel.

E sempre arrebentava no caminho.

Porque não podia colocar nada molhado por baixo das coisas.

Amolecia a embalagem e deslizavam potes e garrafas lomba abaixo.

Nosso maior pedido ao menino empacotador: - Não põe as verduras no fundo!

O pão era de meio quilo ou um 1/4. Não havia cacetinho (pão francês).

Vinha embrulhado em cordão e papel vegetal, que depois servia para anotar a lista das próximas compras.

O leite não ficava condicionado em caixinha, mas em saco.

Havia todo um equilíbrio para abrir o saco com faca e não jorrar leite por tudo.

Tinha que segurar o saco de pé, espichá-lo, para então fazer um recorte na ponta.

A mãe congelava os saquinhos de leite. Quando descia para a leiteira, a gente cortava pedaços e comia como se fosse sorvete.

Hoje a sociedade mudou tanto, houve tantas transformações de hábitos entre os anos 80 até os dias atuais, que a diferença de memória entre pai e filho é de avô para neto.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (18/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SE CHICO XAVIER FOSSE O SEU FILHO

Arte de Julius Schnorr von Carolsfeld

O que você faria se seu filho pequeno conversasse com espíritos, ouvisse vozes, escrevesse coisas inacreditáveis para sua idade dizendo que era alguém recitando em seus ouvidos?

O que você faria se seu filho pequeno orientasse os mais velhos, prevenisse tragédias, virasse uma antena de futuros acontecimentos?

Não é óbvio que você levaria para um psiquiatra? Não é previsível que pensaria que é um transtorno de personalidade?

Não daria remédio? Não colocaria de castigo?

Se fosse religioso, é bem possível que levasse em consideração que a criança estava com demônio no corpo.

Poderia benzê-la, exorcizá-la, carregá-la de rezas e benções.

Mas estou falando de Chico Xavier, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, autor de 450 livros, com mais de 50 milhões de exemplares vendidos, um dos mais importantes nomes do espiritismo.

Todo mundo gostaria de ter Chico Xavier como filho, mas ninguém conseguiria aceitar o dom de Chico Xavier se fosse de seu próprio filho.

Chico Xavier, como qualquer criança absolutamente paranormal, sofreu horrores. Foi criado pela madrinha, Rita de Cássia, logo após a morte de sua mãe. Apanhava porque dizia a verdade, confessava que os espíritos vinham falar com ele.  Acabou açoitado com vara de marmelo, teve garfo de cozinha enfiado na barriga, até que parasse com a bobagem de enxergar fantasmas.

Será que levamos a sério o que as crianças dizem? Será que reconhecemos quem é realmente especial ou sempre tomaremos o caminho mais fácil de achar que a fé é tão somente loucura?

Na dúvida, tenha paciência. Procure observar e ouvir o caso com amor.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (14/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

NÃO TENHO ROUPA

Arte de Eduardo Nasi

Mulher apaixonada vem para matar no primeiro encontro.

O investimento para aquela noite traduz o interesse que tem por você.

Quando ela se produz é que alimenta a maior curiosidade, deseja prender sua atenção, não pretende lutar apenas para não ser rebaixada e se manter na série A, mas busca o título e persegue a invencibilidade.

Se ela comprou todo o figurino novo, aceite que será devastado, arrasado, esquecerá quem foi um dia. É a mulher apagão.

Se ela ainda tem o requinte de vir de salto alto, não tente ganhá-la na conversa, ela que vai levá-lo para onde quiser. É a mulher orgasmo múltiplo.

Mulher demonstra arrebatamento falindo de véspera: horas no salão, horas nos provadores das lojas. Ela não se preparou, ela se inventou totalmente.

Só deixará você pagar a conta do restaurante porque seu cartão de crédito nem vai passar de tanto que gastou.

Ela contraiu dívidas inimagináveis nem tendo a certeza que era para o homem certo. Seguiu a intuição, não facilitou para o destino.

Você acha que ela demorou a agendar um encontro, pois planejou para dois dias dali? Que ela não tem pressa de vê-lo? Que não tem urgência? Enganou-se, ela precisa de 48 horas para nascer de novo.

Protelar o primeiro encontro para a mulher é sinal promissor. Ela necessita se armar, solicitará ajuda para as amigas, criará a expectativa, derrubará seu guarda-roupa, providenciará caixas de velharias para campanha de agasalho.

É um suspense que aumenta a atenção, que gera ansiedade e taquicardia.

Quando uma mulher está interessada em alguém, sua questão existencial imediata não é seduzir, é se desesperar: — Não tenho roupa, e agora? Porque ela sempre achará que não tem roupa quando está perto de um novo romance.

Mulher não busca corresponder às expectativas, isso é coisa de homem!, mulher busca superar as expectativas.

O primeiro encontro dita sua vontade de relacionamento, sua predisposição em prolongar a madrugada ou abreviá-la. Pode até recorrer à uma combinação seminova, o que não significará falta de esperança: adotou uma aparência que inspira confiança.

A roupa diz tudo: vestido é para epopeias, saia é para dramas intimistas, leggings é para comédias românticas.

Se não está usando sutiã, é ousada, desencadeando um strip para a imaginação.

Se mostra as costas, anseia ser beijada de surpresa, assaltada no pescoço pelo passeio dos lábios.

Não alimente falsas esperanças. Mulher não vem à toa no primeiro encontro. Chegará atrasada como uma noiva para que a veja entrando. Para que a veja causando entre as outras mesas. Para que guarde essa imagem de altar no inconsciente. A inveja é a madrinha do amor.

Já quem chega antes não dá muita abertura, está relaxada e fazendo tempo. Fará tempo também com você.

Caso ela apareça sem brincos, sem colar, sem pulseiras, não está muito disposta. Nem pense em transar depois. No máximo, receberá um selinho para correspondência platônica.

Se ela aparece desarrumada ou básica, peça a conta. Ela somente lhe enxerga como amigo.

Se ela surgir de macacão jeans de pintor de parede, por Deus, é um cinto de castidade, a curva do corpo some, não há brilho de estreia, não existe provocação, e sim desleixo. Atravessará a madrugada descrevendo antigos amores e reivindicando conselhos. Ela nem lhe enxerga como amigo, mas pior: como confidente.


 



Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
12/11/2014


TROPA DE ELITE

Arte de George Grosz

As mulheres demonstram o amor entre si de um modo óbvio.

Elas se abraçam, andam de mãos dadas, oferecem colo, acariciam os cabelos, sem conotação sexual.

Amigas confessam seus cuidados sem meio-termo. Há o toque, o aconchego, o abraço longo e apertado.

Elas se aninham e se embalam no reencontro mais banal.

São catárticas, choram, não medem as palavras de ternura.

Celebram a cumplicidade: dançam juntas, realizam mímicas, cobram juras, dividem drinques, emprestam cartões de crédito.

Já os homens entre si são toscos. Quando se amam dentro da amizade, não se comunicam diretamente. Não descarregam declarações.

Eles se escondem na timidez, receiam o vexame, tensos e reprimidos.

O cumprimento é gritado e rouco, o abraço é quase um empurrão. E ainda por cima é bem possível receber uma saraivada de socos nas costas. Meninos crescidos que

continuam a trocar esbarrões e safanões para justificar o contato físico.

Amizade masculina é desidratada, árida. Amizade masculina é corredor polonês, é xingão, é cascudo, é luta livre.

O reconhecimento de importância é feito mais pela piada do que pelo elogio. A saudade é fundamentada pela grosseria. Não espere carícias e prefácios.

O hábito é falar mal para dizer que se gosta.

– Seu otário, onde você andou que não responde a minhas ligações?

Nada é suave, linear, carinhoso.

Homem não entra no armário nem para trocar de roupa.

Eles se sentem culpados por amar um outro homem e disfarçam. Têm medo de que alguém entenda errado, que interprete como atração.

Há um código militar do aceno e do diálogo lacônico. O que prepondera é o uivo, o urro, a reclamação por trás das frases emocionais.

Quem vê de fora pensa que são inimigos, são desafetos, são rivais.

– Idiota, não consegue nem assar uma carne, jamais alguma mulher lhe dará pelota.

Até a solidariedade vem suja, misturada de agressão.

– Esse panaca não tem conserto!

Amor para os amigos é ofendido, formado de insultos, preconceitos e espinhos.

É uma admiração truculenta, bélica, num idioma renhido, criado em estádios de futebol, em churrascos, em bebedeiras.

Como se o pior fosse o melhor, como se o contrário traduzisse o certo, como se o avesso significasse a transparência.

Para consagrar um eu te amo é preciso atravessar um purgatório de impropérios.

E o engraçado é que o “Eu te amo” não é entregue ao interessado, é usado na terceira pessoa para se diferenciar da cantada.

Aparece dentro de um contexto, não numa conversa a sós. É, na verdade, uma apresentação para uma plateia real ou imaginária.

– Eu amo esse babaca!

Homem mesmo só elogia, de maneira pura, a si mesmo. Sabe que não terá ninguém mais para fazer esse trabalho.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 11/11/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17984

APARÊNCIAS ENGANADORAS

Arte de René Magritte

Um ator da Globo, amigo de Neymar, endoideceu de inveja do relógio do jogador do Barcelona.

Era um relógio dourado, parecia ouro, enorme, como um fundo de caveira.

Um relógio lindo, de parar o trânsito, de incomodar perguntando as horas.

Um relógio de parede no pulso.

Um relógio de chamar assaltante para perto.

O amigo de Neymar ficou com vergonha de perguntar onde ele adquiriu o objeto e o valor, deveria ter sido uma fortuna, uma bagatela sem noção.

Levou um tempão até tomar coragem.

Quando perguntou, Neymar respondeu rindo:

- Comprei num camelô no Rio de Janeiro. Bem barato.

Ninguém desconfiaria de que Neymar estaria usando um relógio de camelô. Porque ele pode comprar qualquer coisa.

Imaginamos que ele somente usa grifes e marcas poderosas, o melhor do melhor.

Que nada. É mortal, é comum, é também filho de Deus e também gosta de camelô.

Quem é rico e famoso pode usar marca-diabo e pensaremos que é rolex.

Já eu, se estou com um rolex no pulso, ninguém vai acreditar que é um rolex. Todo mundo pensará que é de camelô.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (11/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O EXAGERO REDENTOR

Arte de Federico Barocci

Quando tenho uma boa e má notícia, nunca pergunto: qual que minha mulher pretende ouvir primeiro.

Eu só conto a má. Exagerado. Como se fosse um apocalipse. Como se não houvesse conserto.

Já digo que errei feio, que estou encabulado, já peço desculpas antes de tudo.

Crio um suspense, um drama, aumento a expectativa, tomo um copo d'água.

Antecipo minha vergonha, meu medo de não ser mais aceito, meu arrependimento.

Aviso que não tenho solução, que não presto, que não tenho jeito.

É certo que ela espera o pior do pior do pior. Pensa no pior do pior do pior. Chega a sentar para ouvir.

E quando confesso: em vez de receber alguma reclamação, crítica, xingamento, sou consolado.

A esposa fica aliviada mais do que chateada. Logo responde que não foi nada. Até me parabeniza.

É incrível como funciona.

Recebo o perdão imediato. Porque a pessoa perdoa o que imaginou, que é mais terrível do que eu realmente fiz.

Nossa imaginação é viciada em tragédias.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (07/11) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Leandro Staud e Jocimar Farina:

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

OUTONO DA MINHA INFÂNCIA

Arte de Eduardo Nasi

A residência de meus avós paternos era um castelo usado para crianças.

A família era rica, perdeu o patrimônio, faliu e não desfrutou de condições para manter o alto poder aquisitivo.

Os móveis da realeza dividiam o cenário com cadeiras de praia e ventiladores gagos. Os vitrais recebiam pedaços de celofane colorido tapando os buracos. O sofá verde de veludo, de madeira talhada com anjos, já mostrava a marca de pés, de queimadura de cigarros, de rasgos nas laterais.

Preciosidades a serviço de pequenos mendigos: nós, os endiabrados netos.

Havia, por exemplo, um imponente lustre de cristal no céu da sala — apenas vi igual no Palácio Piratini. Uma lareira de pingentes. Quatro coroas de um tempo que não existia mais para o clã Nejar.

Tanto que, com quatro lâmpadas, tinha somente uma acesa, tal grau de pobreza que veio da decadência.

Mas a gente não se importava: aquele lampadário forneceu matéria-prima romântica para nossa cambada de seis guris.

Toda semana roubávamos um dos pingentes para fazer colar às namoradas.

Um barbante simples, de rolo de mercado, compensado por uma pedra transparente linda, o mais próximo que conhecíamos de um diamante.

Às vezes traficávamos no mercado negro do amor para sustentar as merendas do bar da escola ou adquirir as melhores bolinhas de gude.

Foram anos de saques noturnos. Quando a quietude dos quartos se firmava, os meninos mais pesados seguravam nos ombros os mais leves, e depenávamos o lustre, a galinha dos ovos de ouro que restou do passado.

Minha avó estava doente, e mal olhava para o alto. Não fiscalizava as perdas. O que nos aliava de severos castigos como comer três refeições sem tomar água e ficar trancado no sótão do piano.

O perigo é que ela decidiu vender o lustre, para prorrogar os remédios e a conta do armazém. Telefonou para um famoso antiquário oferecendo o produto de 1890, fabricado em Paris.

Quando o funcionário veio avaliar a rara peça, deu um preço absurdamente abaixo das expectativas da avó.

Ela ofendeu o sujeito com palavrões, avisou que ele estava se aproveitando de sua velhice e jamais descobriu que o avalista colocou uma cotação muito acima do que ela merecia: o lustre magro, com dois solitários pingentes. Como um plátano no outono.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
05/11/2014