quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O SORRISO DE GRETA GARBO

Arte de Eduardo Nasi

Gatos são educados. Gatos são cordiais. Gatos são gentis. Gatos são, acima de tudo, agradecidos.

O casal de amigas, Natália e Francesca, conhece bem o quanto os gatos são generosos. Até demais.

Greta sempre que recebe carinho no lombo das duas patroas, ou uma bandeja de atum, festeja o afeto procurando um presente pela casa. Entra no modo “Amigo Secreto”. Vai para o shopping dos felinos que são os telhados. Some da vista por algumas horas para reaparecer com um agradinho. Só que um agradinho da sua espécie, do seu particular gosto pessoal.

Empurra a porta do quarto com a cabeça, altiva e feliz, salta para cima da cama, e deixa a oferenda no centro dos travesseiros. Afasta-se cenicamente, recua dois passos, como se fosse realmente Greta Garbo esperando os aplausos após o espetáculo.

Mas o que ela escuta são gritos histéricos de suas protetoras. Uivos e pulos. Uma coreografia improvável de saltos.

— Será que elas estão no cio?, deve raciocinar a gatinha.

Um impasse do casamento gay entre as mulheres é quando as duas têm medo de baratas, e uma não pode socorrer à outra.

Greta largou o inseto marrom, ainda vivo e retorcido, em retribuição aos cuidados. Caçou uma frágil presa e iguaria para dar de presente.

A princípio, não entende a reação, se elas estão desesperadas ou felizes — pois o entusiasmo desenfreado traz igualmente o choro. Fica ainda em dúvida se elas são, no fundo, exigentes e deveria ter trazido uma barata mais gorda e voluptuosa, com antenas tevê a cabo.

— Será que elas acharam um bichinho subnutrido?, cogita a felina.

Não alcança o sentido da reação de Natália e Francesca. As duas estão alucinadas, com vassoura e rodo, espancando os lençóis.

— Será que elas estão com excesso de fome?, raciocina.

Greta apenas escuta miados humanos e braços voando. Um banquete esquisito, sem dúvida. Meio tribal. Meio primitivo. O alvoroço passa a constrangê-la.

— Tira ela daqui! Tira ela daqui!, pedem Natália e Francesca.

Greta não pegará a barata. Afinal, gatos também jamais voltam atrás, jamais se arrependem.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
17/12/2014


COMO NASCE UM FOFOQUEIRO

Arte de Willem de Kooning

O fofoqueiro não nasce levantando o gancho do telefone para ouvir a conversa alheia.

O fofoqueiro não nasce captando o que se fala atrás da porta.

O fofoqueiro não nasce fazendo perguntas indiscretas para depois passar adiante.

O fofoqueiro não nasce na janela do condomínio prestando atenção em quem entra e sai no prédio.

O fofoqueiro não nasce registrando os papos paralelos nos restaurantes e bares.

O fofoqueiro não nasce no salão de beleza, no supermercado, nos corredores dos shoppings.

O fofoqueiro não nasce no churrasco dos domingos.

O fofoqueiro não nasce ao espalhar o que não tem certeza.

O fofoqueiro não nasce de sua maldade na escola, da língua solta no recreio.

O fofoqueiro nasce muito antes. Muito antes.

Descobri quando nasce o fofoqueiro, o exato instante em que ele vem à tona, o momento em que sua alma solitária passa a ser enxerida, em que perde a admiração pelo respeito e silêncio e torna-se um agente do ruído.

Quando seus pais deixam o filho dormir no meio deles.

Quando os pais permitem que seu filho durma por longo período na cama de casal.

Quando seus pais não colocam o filho de volta para seu quarto, sensibilizados pelo medo ou pela chantagem emocional.

A criança aprende que pode se meter na vida dos outros. É autorizada a estar infiltrada na intimidade, apropriando-se do que não é dela. Não recebe nenhuma negativa para estabelecer limites. Age pelo impulso da emoção, inconsequente, pois seus caprichos acabam atendidos com rapidez.

Ficará eternamente confusa sobre onde começa e termina sua liberdade. Pois toda casa é seu berço, todas as pessoas são influenciadas por ela.

Não diferencia o coletivo do particular. Percebe que a manha é uma moeda e que mentir sempre funciona para conseguir o que quer.

Não é inspirada a respeitar os espaços, a consolidar sua solidão, a manter seus segredos e territórios da imaginação.

Por mais bem-intencionado que seja o acolhimento, é um convite para a especulação emocional.

Num simples ato de aceitar que o filho não descanse em seu quarto, validamos que seja penetra das confidências.

Tem um passaporte para chegar a qualquer hora, a qualquer momento, e interferir nos acontecimentos.

Acostuma-se a não ter um lugar, e assumir papéis que não são seus.

O fofoqueiro é o resultado da insegurança dos pais.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 16/12/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
18015

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NÃO SEI O QUE ESTÁ ACONTECENDO

Arte de Maxwell Bates

Não há maior burrice do que parecer inteligente e exibir somente respostas afirmativas para qualquer tema. 

Os sábios não são aqueles que conhecem tudo, mas são os que têm a coragem de dizer não sei.

São simples, diretos, verdadeiros.

Inteligência é também a humildade de se calar.

Quem diz não sei vai aprender.

Quem diz que sabe e não sabe jamais vai crescer.

Todo mundo quer ser Google.

Ninguém mais pergunta nada.

As pessoas têm vergonha de suas dúvidas.

As pessoas têm vergonha de errar.

As pessoas têm vergonha de sua curiosidade.

As pessoas preferem concordar sem parar para enganar os outros. 

Todos professam conhecimento de modo intransigente, opinam sobre qualquer coisa, exercem uma rede de certezas que me deixa sem graça. Parece que virou crime dizer não sei.

É tanta prepotência que são capazes de fingir que estão entendendo o assunto para não correr risco de estar em desvantagem.

É uma ausência de honestidade no trabalho, no amor, na amizade.

É uma ausência de honestidade na balada, no bar, no boteco.

Diga mais "não sei" para realmente amadurecer do que um "eu sei" falso para terminar a conversa.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (16/12), na Rádio Gaúcha programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

SOS MATERNIDADE

Arte de Gabriele Münter

O que tenho de amigas, entre 20 a 35 anos, que estão desesperadas para ter um filho.

Dizem que a principal aspiração é engravidar. Contam que incham os seios ao imaginar o berço perto da cama. Não passam impunes diante de um carrinho ou de uma barriga de gestante na rua. Mas nenhuma delas mais acredita no amor. Não apostam na convivência. Se pintar um namoro é lucro, mas todo o investimento e o esforço jogam para a maternidade.

Julgam o filho indispensável. Por sua vez, o marido é tratado como secundário e, infelizmente, irrelevante. Elas não pretendem sofrer com as desventuras, as separações, a rotina em comum. Buscam atalhar, cortar caminho e ir direto ao ponto. Partem da certeza de que não dependem de nada (nem namorado, nem emprego, muito menos estabilidade). Podem recorrer à inseminação ou a um caso em que assumirão os riscos.

O que considero uma grande pena e um monumental capricho. E incluo neste processo também a adoção, que pede o equilíbrio da gangorra.

Não podemos subestimar a paternidade. Não podemos menosprezar a educação que vem do amor.

Antes de encontrar um pai para ter um bebê, deve-se amar uma companhia que se tornará pai por merecimento. E definir um pai é mais do que preencher uma linha da certidão de nascimento, é garantir o sentido da vinda ao mundo para a criança.

O filho é o resultado da intimidade, a consagração da confiança do casal, não uma solução para todas as carências de uma mulher.

Se não suporta as carências de uma relação, como tolerar as demandas infinitas de um filho? A convivência do casal é a preparação para a convivência com um filho.

Querer ter um filho somente para si não é prova de independência, e sim um apelo infantil para apressar a maturidade. Ninguém é onipotente e autossuficiente para dar conta – absolutamente sozinho – do desafio da criação.

É lindo sonhar com o enxoval, o chá de fraldas, a mão no ventre, os primeiros dos primeiros movimentos. Só que o filho precisa ser visto, desde o início, como um futuro adolescente, um futuro adulto, um futuro de conflito e oposição.

Filho não é maleável, um ser vazio para transferir arquivos. Já vem com temperamento: seu grito no nascimento é personalidade, seu riso é personalidade. E parte da personalidade do pai estará sempre ali, estando próximo ou não.

Não se tem um filho, aceita-se um filho. Requer uma responsabilidade ininterrupta, sem um dia de folga. Atirar-se para a maternidade ansiosa e inconsequentemente é um erro que gera outros erros. E não adianta esperar que a terapia resolverá tudo, a função da terapia é resolver durante os problemas.

A figura paterna representa um sadio contraponto, uma distinta possibilidade de admiração e de influência, que aumenta as chances de escolha do rebento.

Nem estou falando em “ajudar a cuidar”, expressão usada preconceituosamente para a paternidade. No casamento, homem não é coadjuvante da casa, foi um dia, mas não é mais. Tem solidão suficiente e dedicação ao lar para superar a imagem de simples apoio. Homem não é pai para acordar de madrugada ou trocar as fraldas. Não deve ser restringido à troca de turno. É importante para orientar, aconselhar, proteger, inspirar, planejar, fazer junto.

Assim como o pai é fundamental para a mãe não sufocar de amor sua criança. Retira aquela exclusividade doentia, aquela adoração desmedida, aquele monopólio da atenção. Pois a criança quando sozinha e afastada de um pai acaba substituindo as diversas necessidades psicológicas e projeções da mulher. Recebe o fardo de ser o único da vida de sua mãe. Não apenas o filho único, o único mesmo! Um rei condenado a assumir o trono ainda pequeno, antes mesmo de descobrir quem é.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS),  14/12 /2014 Edição N°18013

CORAÇÃO DURO DE ROER

Arte de Bryan Charnley

É desaconselhável conviver com alguém logo depois de uma separação. As mulheres têm razão.

Não há condições de ser agradável, de ser sociável, de ser carinhoso.

Separado não admite visitas por mais de uma hora que já começa a sofrer com flashbacks.

Só consegue ser educado por uma hora. Depois disso, o desespero e a saudade tomam conta dele.

O que ele mais quer é ficar sozinho para poder se derramar. Reservar-se o direito da antipatia das lágrimas.

Depois que chora, até deseja chamar o convidado de volta, porém já é tarde.

Não há dor maior do que a separação. Quando foi amor. Quando é amor. Aliás, os tempos verbais se embaralham: ontem parece hoje, o amanhã parece ontem.

Impossível determinar se ama ou amou, nada deixou de acontecer na pele.

Além da falta de apetite e do desleixo característico, o separado alucina. Arca com infinitas crises de ansiedade, de susto, de apreensão. É uma fissura incontrolável: seu desejo é resolver a dor de qualquer jeito, e qualquer jeito é voltando para sua ex de qualquer jeito.

Olha para a janela como quem aguarda um ônibus. Encara a porta como quem espera um trem. Está atrasado de si.

Aguenta apagões consecutivos de consciência, como se estivesse sendo assaltado a cada meia hora. O separado foi terrivelmente roubado, não descobriu ainda o que levaram. Descobrirá pouco a pouco, dia a dia, despertar a despertar. Talvez tenha sido latrocínio e ele seja um fantasma pela casa.

É uma confusão mental entre o que foi e o que poderia ser. Ele lembra e imagina simultaneamente, sem definição precisa das fronteiras. De vez em quando, recorda uma experiência comovente a dois, uma conversa de cozinha, juras na cama, vindas de um passado remoto; em outras, delira o que estaria fazendo naquele instante, que palavras seriam ditas, qual música estariam ouvindo. Vive uma avalanche intermitente de sensações antigas e novas com o mesmo peso, incapaz de decifrar o que realmente é verdadeiro.

Isso quando não apanha do lado turvo do relacionamento – as discussões, as decepções, o choque de identidades –, coisas que não gostaria de ter enfrentado e que não entende como não conseguiu remediar a ponto de salvar o casamento.

Tudo o que conta aos amigos e familiares é o contrário do que sente. Reclama e ofende sua companhia para se convencer de que decidiu acertadamente, mas o que deseja é simplesmente receber o beijo e o abraço dela de volta. Inviabiliza, de modo racional e inútil, as chances de reconciliação, entretanto é o que anseia. Cria uma oposição desastrada para prevenir sua passionalidade.

Como não pode ter o que quer, mendiga milagres. Posta frases e indiretas no Facebook e no Twitter, ainda que ela esteja bloqueada, acreditando numa comunicação sobrenatural.

Nem trabalha, muito menos descansa. Reconstrói cenas de ciúme ou de redenção, fraqueja com filmes, não consegue ler um livro, manter o foco, sua atenção oscila para uma única obsessão: ligar ou não ligar, retornar ou se manter firme no propósito de se distanciar.

O separado é um doente. Deveria ser internado. Posto numa cama com soro. Sua cabeça não dá trégua, porque enfrenta um impasse entre sua razão e sua emoção, numa queda de braço que resulta sempre em fratura.

Está com o osso fora do lugar. O coração é um osso agora. Duro de roer.

Se fosse um cachorro, enterrava. Se fosse um cachorro, mas não é.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS),  07/12//2014 Edição N°18006

FOTOGRAFIAS MENTAIS

Arte de Fernand Léger

Uma mulher não é boba. Ela controla os detalhes da casa para verificar se o homem está mentindo ou não.

Garanhões que desejam se passar por românticos, tenham cuidado.

Não basta trocar a roupa de cama e recolher o lixo. Precisa ser uma faxineira perfeita para manter a imagem de come quieto.

A mulher vai olhar se tem dois pratos na pia, vai olhar se tem batom no copo, vai olhar se a caixa de pizza é grande, vai olhar se tem cabelos na escova, vai contar quantas camisinhas tem no armarinho (para recontar numa segunda visita), vai olhar se sua melhor roupa está secando no varal, vai olhar garrafa de vinho para despachar, vai olhar o que tocava em seu playlist, vai olhar tudo, nada passa batido.

Mulher fotografa mentalmente a residência do pretendente como se fosse cena de um homicídio.

Vai olhar quais as amigas que adicionou no Facebook e conferir se frequentaram o mesmo local, vai olhar onde seus parceiros inseparáveis estiveram na noite passada (certo que haverá alguma coincidência), vai estranhar sua desimportância com os toques do telefone, vai espiar se o banco do carona está reclinado, se o espelhinho está aberto, vai dar uma geral no cheiro de suas almofadas do sofá, vai brincar de quente ou frio dependendo de suas respostas assustadas.

O amor é cego, mas as mulheres não.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (12/12), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

VAMOS DORMIR?

Arte de Eduardo Nasi

Quem é casado sofre com o duplo sentido de suas frases porque o outro lado entende o sentido errado. Conversa sozinho jurando que está sendo compreendido. Não tem coragem de expressar o que deseja diretamente, e lança metáforas e figuras para alcançar o que quer. Nem sempre tem resultados favoráveis.

Tanto a mulher como o homem.

A mulher não dirá: vamos transar? Não é mesmo coisa que se diga. Chegará de mansinho, implícita e sedutora, com uma pressa estranha para dormir cedo.

São 22h, e ela começa a suspirar e bocejar no sofá, como se estivesse em um fuso diferente. Ela vive em Tocantins e ele em Porto Alegre, apesar de dividir a mesma casa naquele instante.

No primeiro intervalo comercial, encara seu companheiro e interpela:

— Vamos dormir?

Ele está no começo de um filme e não capta a mensagem oculta: sua fêmea deseja sexo, transpira sexo, cheira a sexo.

Sem mexer o pescoço, o sujeito responde para que vá na frente.

Ela insiste:

— Vem assistir na cama coisa melhor.

Ele nem tira os olhos da tela:

— Depois eu vou. Ainda não estou com sono.

Nem ela tem sono. Ela procura tudo, menos dormir. Dormir é apenas uma maneira educada de convidá-lo para ficarem a sós.

Nada mais melancólico do que se mostrar interessado e sua companhia se revelar desentendida.

Ela atingirá o extremo da humilhação ao passar pela sala, nua, e ele não assimilar o espírito depravado do desfile e confundir com uma expedição por roupas na área de serviço:

— Já tirei sua calcinha do varal e coloquei na gaveta.

É desesperador ver que não absorve a carência e a tensão da cena.

Só que ela não cansa com receio de perder sua vontade. Surge na porta, a cada quinze minutos, suplicando a vinda imediata.

E ele, como uma criança ingênua, não põe sua cabeça a trabalhar. Suas duas cabeças. Já reclama com a teimosia.

— Que pressa é esta? Estou sem vontade de deitar agora, me deixa relaxar!

Os homens também podem ser vítimas da charada.

Quando o marido assume uma condição excessivamente romântica é que ele anseia pela transa. Do nada, inventa beijinhos no pescoço, lambidas, carinhos nas costas, pergunta qual a cor da lingerie. Não sai de perto e tenta encaminhar  o enlace.

A saída habitual feminina é perguntar sobre os projetos do emprego, se tem algo para adiantar. Disfarça a ausência de interesse com uma súbita preocupação profissional. Logo ela que odeia que leve serviço para a casa.

Não é que desceu o espírito de Madre Teresa de Calcutá em seu corpo. É comum no relacionamento ser egoísta procurando parecer generoso. Jamais alguém é sovina expondo as reais intenções:

— Não tem que fazer aquele trabalho hoje?

Ele responde que não. Daí ela parte para a segunda investida. O banho longo e o documentário chato.

— Só preciso tirar a energia ruim do estresse, e tomar uma ducha rápida. Serei nova daqui a pouco.

Põe o homem na cama, cria expectativa (afinal, não deseja entregar que não está com vontade nenhuma), liga a tevê num especial sobre cozinha tailandesa e segue para o chuveiro.

O banho demora cinquenta minutos. Mais do que uma tele-entrega.

Quando ela sair envolvida na toalha, seu marido estará roncando. Não há criatura que se mantenha excitada com uma narração em off e a espera interminável do banheiro.

O amor é um pesadelo de indiretas.


 



Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
10/12/2014


O SAPATO DA FILHA

Arte de Philip Guston

Só agora, depois de dois anos da tragédia de Santa Maria, após a perícia e a investigação policial, os familiares podem reaver os pertences de seus anjos da noite infernal de 27 de janeiro de 2013 na boate Kiss.

Não resisti em chorar – eu que tenho uma filha de 20 anos –, quando vi na televisão que um dos pais dos 242 mortos estava procurando o sapato que faltava de sua adolescente.

– Preciso achar!

Sua filha foi puxada dos escombros e do incêndio com o pé direito descalço. Aquele pai desesperado e angustiado com a perda irreparável está obcecado em vestir pela última vez sua menina.

Aquele pai sabe o que significa o sapato para uma mulher. Sabe o quanto a filha escolheu o sapato para a balada. Sabe o quanto brigou pelo sapato, dizendo que era caro mas iria durar. Sabe o quanto ela não tiraria o sapato por nenhum motivo, para não sacrificar o charme e a elegância durante a festa.

Aquele pai encarna o conto de Cinderela ao avesso. Pretende calçar a filha para reaver a paz em si.

É o mesmo sapato de crochê que botou em seu bebê assim que nasceu. É o mesmo sapato que ensinou a amarrar quando ela tinha sete anos. É o mesmo sapato que ele pisou, desajeitado, quando dançava a valsa de debutante de sua jovem. É o mesmo sapato com que comemoraram a entrada na faculdade.

O sapato é, neste momento, todos os sapatos da vida de sua filha. O sapato que restou. O sapato sobrevivente. O sapato do qual ele nunca esquecerá o número. O sapato último, definitivo, que não poderá ser substituído por mais nenhum aniversário.

O sapato que vai equilibrá-lo no pesadelo, na oração, na dor. O sapato para colocar lembranças na lareira no Natal.

O sapato viúvo dos amores que ela não teve, órfão dos pais que ficaram.

O sapato que é uma forma enlouquecida do pai de continuar caminhando com sua filha.

O sapato sem estrada, sem futuro, andando de volta ao passado.

O sapato envernizado, de couro, ainda novo, arrancado precocemente de sua dona.

O sapato que daria para muitos verões, milhares de sóis, infinitas ladeiras.

O sapato que não se gastou, mais longevo que o destino de uma adolescente.

O sapato que é a possibilidade de segurar o chão de sua filha por mais um instante, de oferecer chão para sua filha.

O par não terminará incompleto, apesar da enorme injustiça no coração.

Entre uma montanha de bonés, colares, alianças, celulares e identidades, o pai tentará reconhecer o sapato de sua filha. E levar para casa algo salvo daquela noite.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 09/12/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
18008

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

VOCÊ TEM UMA NOVA MENSAGEM

Arte de Wassily Kandinsky

Ex tem uma mania indigesta, que não dá certo: mandar mensagem de madrugada justificando saudade.

Só piora a separação. Se sua antiga relação recebe uma mensagem às 5h da manhã, não vai concluir que você está sentindo falta. Não vai se emocionar. Não vai se comover.

Ficará ainda mais irritada. Mais fula. Mais p. da vida.

É uma serenata eletrônica ao contrário.  É um buquê desfeito em coroa de flores.

Perceberá que você ou está de porre, ou saiu para festa e se arrependeu, ou está carente e desesperado, ou foi farrear e não ficou com ninguém, ou todas as alternativas.

Ninguém em sã consciência envia torpedo às 5h da manhã. Ninguém que deseja reconquistar alguém manda declarações nesta hora. É perder o que restava da credibilidade.  

São textos sem pé nem cabeça, com erros de português e digitação juntos, um código morse numa língua inventada.

Por que você estaria acordado neste horário? Evidente que estava em uma balada. Acaba de se entregar.

Os recém-separados não poderiam sair com celular de noite. Depois que bebem, estão propensos a recaídas inexplicáveis.

Nenhuma ex, nenhum ex levará a sério o pedido. Não acreditará no efeito legal das palavras.

Torpedo de madrugada é coisa de bêbado.  

Mensagens de amor apenas funcionam no expediente comercial.

Ouça meu comentário na manhã desta terça-feira (9/12), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

CENTRAL ÚNICA DO AMOR

Arte de Hannah Höch

O emprego contaminou o amor.

O amor tornou-se uma luta sindical.

A greve é a separação. As pessoas se separam para fazer exigências, cobrar transformações do outro, receber benefícios e vantagens que não conquistavam com a rotina.

A separação converteu-se em chantagem.

Os casais não se separam mais porque não se amam, mas porque desejam melhorar suas condições de convivência.

É uma luta para ampliar o poder e a influência dentro da relação.

Discutir está fora de moda. A tendência é se separar de vez para convencer o marido ou a esposa dos seus argumentos.

A distância é um ultimato. A saudade é uma pressão. O fim é uma ameaça.

Perde-se um amor para ter seu valor reconhecido.

Se o homem não quer casar, a mulher some para que ele sinta falta e logo volte com um par de alianças.

Se a mulher não quer morar junto, o homem dá um gelo e logo consegue dividir o teto.

A artimanha vale para convencer o parceiro a ter filhos, a fazer viagem, e comprar casa. E também para forçar alguém a parar de fumar ou beber.

A CUA (Central Única do Amor) vem crescendo. Não brinque em serviço.

Ouça meu comentário na manhã desta sexta-feira (5/12), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: