quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A PAZINHA

Arte de Eduardo Nasi

Sempre fui fã de varrer. Vassourar não é um ato gentil, de empurrar a palha com cuidado submisso pelo chão.

Aquele que dança vagarosamente com o cabo mata o tempo, imagina passos de samba, jamais limpa.

A vassoura pede gestos bruscos e firmes. É para socar o solo, com obsessão de boxeador. A agressividade é o único jeito de recolher a sujeira do canto e espantar o pó.

A vassoura é uma trabalheira do inferno, de gente dura e fervorosa, por isso que zeladores optam por usar a mangueira para evitar o desgaste excessivo do pulso.

Quem pensa que varrer é proeza da delicadeza nunca faxinou um pátio.

Repare no gari de sua rua, ele transforma a vassoura em uma enxada, tamanha a força que empenha em seus braços.

Não dá mole para baganas, papéis grudados e chicletes. Finca a cabeleira sarará nas frestas do meio-fio, sem medo de quebrar o vento.

É heavy metal, é trash, é de uma crueldade ritmada.

Eu tenho medo de encostar o dedo no uniforme laranja, romper sua concentração e receber um tapa involuntário. Seria muito mais amistoso interromper o transe de um sonâmbulo.

Desde cedo, eu identifiquei a vocação violenta do hábito.

Recorria à vassourada como uma terapia, minha tarefa caseira de sexta-feira.

Suava, cansava os ombros, exorcizava a energia maldita.

Um dos primeiros sinais de minha independência foi quando descobri a possibilidade de varrer e segurar a pazinha ao mesmo tempo.  Tinha dez anos no instante em que equilibrei a vassoura numa mão e a pazinha noutra. Meio por acaso, meio aloprado pela pressa. E consegui depositar a sujeira inteira para dentro do vão. Aquilo mexeu comigo. Era como levantar o guincho de uma retroescavadeira.

As palavras se tornaram maiúsculas naquela manhã. Adquiria um superpoder, uma tecnologia avançada. Abobado, comemorei a repentina emancipação.

Antes dependia dos outros para terminar a missão. Recolhia as folhas do quintal, os ciscos, os abacates podres e esperava que a mãe ou algum irmão viesse me socorrer. Identificava a pazinha como um embargo, atrasava invariavelmente o futebol e as brincadeiras com o playmobil. Depois de gritar por apoio, mofava no terceiro degrau da área de serviço: horas mortas, baldias, desnecessárias.

Quando pude realizar tudo sem a ajuda de ninguém, eu me vi maduro. Finalmente podia morar sozinho, estava pronto para ficar solteiro mais do que casar.

Foi um dos poucos momentos de solteirice em minha vida.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
27/8/2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

CASA ALUGADA NA PRAIA

Arte de John Banting

Não possuir uma casa no litoral tinha seu valor.

Nunca sabíamos onde passaríamos o verão.

Nem o paradeiro, muito menos o endereço. Dependia da finança paterna.

Quando sobrava dinheiro, rumávamos para Santa Catarina. Quando faltava, íamos pelas praias mais próximas, como Pinhal e Cidreira.

Era uma surpresa constante.

O pai arrumava as malas, ajeitava o caos no bagageiro, reclamava que não veria nada pelo retrovisor e não abria nenhuma informação do nosso destino. Ele nos levava no escuro até o local que escolheu.

Brincávamos de cabra-cega durante o percurso.

Onde será? Quantas quadras do mar? Toda casa que enxergávamos pela janela poderia ser a nossa.

Eu me emocionava só de imaginar, nem precisava acontecer.

Os pais preferiam alugar e eu também.

Porque despertava uma competição alegre entre os irmãos.

Quem ficará com o melhor quarto, a melhor vista, o melhor esconderijo?

A entrada pela porta gerava uma corrida desesperada de inspeção.

– É meu, é meu, é meu! – os quatro filhos subiam as escadas e apontavam sem parar.

Não olhávamos direito o conjunto, invadíamos cada cama com a sanha de Colombos, Américos, Cabrais da orla, descobridores de novas terras e civilizações. Com o grito, queríamos garantir a prioridade da escolha.

Não deveria ser simples distribuir os lugares. Desencadeava decepção e piquete:

– Mãe, não vale, pedi primeiro!

Nossa justificativa infantil estava estruturada em pedir primeiro e depois fazer manha.

Vinha um sentimento confuso e misterioso na hora de ocupar o imóvel. Bendito e maldito, prazeroso e melancólico.

Era entrar numa residência totalmente desconhecida e mobiliada. O aluguel apenas civilizava o nosso roubo.

Desfrutaríamos de 30 dias para encarnar uma segunda família, já que a nossa não havia dado muito certo.

Não tirávamos férias somente de espaço e de tempo, mas também de personalidade.

Experimentávamos uma decoração diferente, costumes diferentes, um arranjo doméstico diferente, de quem a gente nem ouviu falar.

A mãe abria as gavetas para avaliar os talheres, abria as despensas para julgar panelas e pratos. Quando reconhecia algo bom, exclamava:

– Nossa, vai facilitar a vida!

Tanto que não carregava meus brinquedos na viagem, com exceção da bola.

Encontrava bicicleta de pneu furado, baldes e geringonças de crianças no depósito.

Alugar residência na praia significava herdar a infância de um outro menino.

Fingia não ser eu, colecionava cartas, perdia tardes consertando jogos, esquecia o meu futuro cuidando do passado de alguém.

Mantenho esse esquisito e fascinante veraneio dentro de mim. Consciente de que o mar nunca foi meu, sempre tive que devolvê-lo quando chegava março.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 26/8/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17903

A SOLIDARIEDADE DA DOR


Arte de Francis Picabia


Logo após a morte trágica do ex-governador Eduardo Campos, sua viúva Renata estava lúcida, sóbria, serena, tranquila. Não estava desesperada, chorando, esperneando, como era de se esperar. Era a mais atingida pela tragédia, com filho pequeno, mas a que mais confortava a família. Diante da verdadeira dor, somos fortes, decididos, solidários, dividimos os ombros, oferecemos colo. Na dor terrível, paradoxalmente, é o momento em que nos preocupamos com a dor dos outros.

Já quando a dor é falsa, já quando a dor é orgulho ferido, somos egoístas e negligentes. Acabamos nos isolando, só pensando em nós, só chamando atenção, só querendo aparecer, só pretendendo encontrar um culpado pelo sofrimento.

Na dor verdadeira, somos sábios, carinhosos, atentos.

Na dor falsa, somos individualistas, insensíveis e grosseiros.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (26/8) na Rádio Gaúcha programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O DIA SEGUINTE HOJE

Arte de Alexandra Nechita

Ao fazer festa em casa, do que mais gosto é a bagunça.

Não da festa em si, mas daquilo que precisarei arrumar no dia seguinte.

Sou vidrado pela ideia de reconstrução de um ambiente em algumas horas.

Tudo repentinamente fora do lugar, sujo, imundo, e há o desafio de reencontrar a ordem natural das coisas.

É uma recriação do mundo num final de semana.

O corredor beira o estado de sítio, o banheiro sofreu com o desespero dos boêmios, as estantes dos livros estão cheias de bandejinhas de salgados.

Nem espero o dia seguinte.

Nada mais íntimo dentro de um casamento do que o silêncio das 6h. Todos já foram embora, felizes com a balbúrdia, e nós dois decidimos ajeitar o lar enfrentando o cansaço.

O previsível era deitar com a roupa do corpo e desmaiar, desprezando os escombros e a vida virada pelo avesso.

Mas não, eu e minha mulher adoramos o pós-festa, quando estamos sozinhos.

Reina uma sensação de paz, de sobrevivência.

A faxina é partilhar a memória do encontro. Melhor do que roda de violão.

A faxina é fixar as lembranças antes que sejam corrompidas pela enxaqueca do meio-dia.

Ela segura o lixo de 100 litros e eu vou buscando as garrafas de cerveja espalhadas pelos cantos.

Vamos conversando sobre as cenas mais engraçadas da festa, o comportamento dos amigos, as coreografias das músicas ridículas.

Cada um repassa o que viu e o que conversou. Como anfitriões, tínhamos o trabalho de nos revezar por diferentes turmas e atender a todos, não deixar ninguém excluído e isolado. Naquele momento, completamos o quebra-cabeça da noite.

– Você falou com a Vanessa? E como ela está com o marido?

– Sim, pareciam alegres. Já passou a tormenta.

De nosso papo frugal, seguimos com o rodo e a vassoura, um encarando o outro com ternura.

De vez em quando, reclamo da dor nos braços. De vez em quando, ela reclama da dor nos pés. São exclamações naturais do sacrifício que não se estendem por muito tempo.

Ela massageia rapidamente meus ombros e diz que providenciará uma massagem mais tarde. Eu tiro seus sapatos, apertos seus dedos e juro que depois pego um creme para aliviar o estresse.

A admiração é feita de pequenas pausas e promessas.

E seguimos nosso baile mudo, nossa coreografia de espuma e detergente.

Lamentamos uma mancha que não sairá no sofá ou algumas cicatrizes novas nas paredes. Não choramos por algo que tenha sido quebrado. Entendemos que a amizade é para ser usada.

Recolhemos o exército de copos e cálices, os pratos sujos, e não nos intimidamos com a quantidade de louça que ocupa a mesa inteira da cozinha.

Dividimos as tarefas: primeiro os copos, depois os pratos, em seguida os talheres. Assim não sofremos com a dimensão assustadora do compromisso.

E continuamos nossa troca de impressões ouvindo os pássaros assobiando ao longe. Não temos certeza se são os rumores das aves ou se é a claridade cantando lentamente na janela.

Ela pergunta se estou com fome. Paramos um pouco nossa arrumação para esquentar salgados e comer sentados no chão da cozinha, na posição de índios ao redor da fogueira.

Corre entre nós uma cumplicidade apaixonada, como se só nossos olhos dançassem.

O amor não é apenas uma festa, como alguns imaginam. O amor é também dividir o trabalho de limpar a casa.

Acordamos com o apartamento brilhando e nos beijamos de olhos fechados, ainda sonhando.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 24/8/2014 Edição N°17901

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

COMO ACORDAR SUA MULHER FINGINDO QUE NÃO FOI DE PROPÓSITO

Arte de Burle Marx

- Encaixe uma conchinha já bem excitado. É irritante estar dormindo e sentir que o outro quer sexo.

- Levante da cama e deixe a porta levemente entreaberta.

- Entre no quarto para escolher a roupa com lanterna. Ela terá a sensação de que é uma operação da Polícia Federal. A lanterna é muito mais enervante do que a janela escancarada.

- Simule um telefonema e somente diga de maneira ininterrupta: “Sim Sheila, não Sheila, sim Sheila, não Sheila”. Ela deve acordar somente para perguntar quem é a Sheila.

- Chame as tias-avós para bater papo na sala. Elas estão surdas e vão conversar gritando.

- Cubra os pés de sua esposa com dois edredons. Como uma âncora. Para que ela passe calor.

- Pague um café para o zelador cumprimentar as pessoas que se aproximam no prédio, de preferência debaixo da janela do quarto.

- Chame a entrega do gás. Os entregadores apertam todos os andares até acertar o seu apartamento.

- Sacuda o pote de ração dos gatos no corredor para gerar miados.

Se nada vingar, apele para a demonstração de amor.

Leve café na cama. Definitivamente vai despertá-la. Apesar do mau humor, ela não pode reclamar de uma gentileza.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (22/8) na Rádio Gaúcha programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

NÃO SOU GAY

Arte de Eduardo Nasi

Desculpe decepcionar, mas não sou gay.

Sou hétero, tosco, apaixonado por buceta.

Sempre me relacionei exclusivamente com mulheres e será assim até o fim do meu tempo.

Não tenho nenhuma queda pela bissexualidade, não me passarei por moderno, não defendo swing, relação aberta ou sexo livre.

Minha liberdade sexual é intimidade.

Nunca me esconderia no armário, tenho muita roupa para guardar.

Seu preconceito é com qualquer um que conheça o universo feminino, como só o gay fosse sensível, observador e atento.

Você não gosta de homens que perturbem seus modelos.

Você gosta de homens monotemáticos, preguiçosos e diretos, presas fáceis da dominação.

Não é o meu caso. Posso ser submisso para influenciar ainda mais. Posso ser generoso para receber ainda mais.

O contrário é persuasivo. Quem é somente o que é não entendeu metade da missa em latim.

Talvez estranhe minha voz de turista (superei sérios problemas de dicção na infância), talvez estranhe meus gestos espalhafatosos (abraço até o vento), talvez estranhe minhas roupas extravagantes. No fundo, eu me acho apenas desengonçado.

Realmente sou educado: não vou arrotar em público, cuspir minha gripe no canteiro, palitar os dentes em churrascaria.

Minha preferência é por expor meus sentimentos: vou gritar por amor em público, pisar nos canteiros por ciúme, rilhar os dentes por justiça.

Não me envergonho de minhas dúvidas e sou capaz de permanecer horas ao telefone com amigos falando de relacionamento. Assim como qualquer mulher.

Sei fazer nó de gravata e, se precisar, posso ajudar a se maquiar. Assim como sei trocar lâmpada e pneu.

Na ausência de terapia, arrumo a casa. A faxina é um exorcismo barato, além de ser uma lição de humildade.

Gay não é aparência, gay é alma, e minha alma é essencialmente masculina. Tive vários casamentos e meu sonho é me aquietar com alguém que me entenda e me admire até envelhecer.

Sou independente, feio e estável financeiramente.

Aliás, sou tudo o que escrevo.

Minha solidão não dura sequer duas horas. Sofro de hiperatividade amorosa, sempre penso em fazer uma gentileza e agradar minha companhia. Ser carinhoso é também irritante, já que crio dependências desnecessárias.

Amo balada desde que possa sair na hora em que quiser. Festa boa não significa ficar até amanhecer, já aprendi isso em minha adolescência.

Danço com os braços e as pernas, meu quadril não se movimenta, infelizmente. Meu samba é batucar caixa de fósforos, desafiando a escuridão.

Cozinho apenas o básico para os filhos: ovo, arroz, massa e bife. Pai PF.

Perco meu senso de humor quando meu time perde. Vou ao estádio aos domingos, com a minha camiseta da sorte e o radinho de pilha da minha infância.

Sofro quando sou incompreendido, mas também quando sou compreendido rapidamente (daí eu me sinto superficial).

Meu temperamento não é fácil: encontro sempre uma desculpa para minhas falhas ou inverto a conversa para me beneficiar.

Não tenho motivos para mentir.

Olhe só como o mundo mudou: hoje temos que assumir que somos hétero.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
20/8/2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

CEBOLÃO E ESCAPULÁRIO

Arte de Max Ernst

Amo ganhar presente.

Finjo que não, mas amo ganhar presente.

Digo que não precisava, mas amo ganhar presente.

O presente de minha preferência é o usado, nenhuma novidade ou lançamento.

É receber algo de precioso do outro. Algo que o outro usava.

É uma herança em vida. É uma partilha em vida. É desafiar a morte distribuindo a própria existência.

Pode ser um anel, um livro, um casaco.

Não há maior demonstração de amor do que subtrair um objeto de seu cotidiano para premiar um amigo.

É repassar, além da lembrança, o nosso estilo.

É repassar, além da homenagem, a nossa estima.

Diferente daquele que compra um novo para não emprestar, é dar o que é seu, pois encontramos quem nos representa, encontramos a nossa extensão, encontramos quem cuidará de nossa fortuna simbólica como se fosse a gente. É atravessar o espelho muito mais do que uma porta.

Recebi de meu pai um cebolão. Um relógio antigo, azul fosco, com pulseira de metal, de marca Technos. Fui descobrir depois que era do avô, e que a peça foi repassada de geração a geração.

Tinha 12 anos. Ele tirou de repente da mão esquerda no meio do almoço. Mal repousou em meu braço magrela: enorme, pesado, brilhante. Mais parecia um relógio de parede, um cuco do pulso.

Lembro que fiquei tão feliz que fui jogar futebol naquela tarde com o bambolê das horas balançando em meu pulso. Talvez tenha confundido com uma braçadeira de capitão.

Meu pai, quando me ofereceu o que mais gostava de presente, estava afirmando:

– Tome, seu tempo é meu tempo. Você me continua. Você me segue.

Ele não alcançava apenas o relógio, e sim seu tempo. O tempo de suas convicções. O tempo de suas palavras. O tempo de suas recordações.

Carrego o relógio paterno com indisfarçável orgulho, assim como o escapulário de minha mãe.

Ela colocou em meu pescoço quando me formei em Jornalismo, corrente de oração que foi da avó e da bisavó. Há o rosto de Cristo num coração em chamas. É um pouco assustador, como tudo que envolve a fé.

É curioso concluir que o pai quis me dar seu tempo e a mãe quis me dar seu Deus.

O primeiro preocupado com meu futuro e a segunda preocupada com a minha salvação.

Até hoje meu pai sempre diz que pensa em mim e minha mãe sempre diz que reza por mim.

Relógio e escapulário formam minha família no meu corpo.

Nem somente casais têm alianças, mas também pais e filhos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 19/8/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17895

A VERDADEIRA JANELA

Arte de Mimi Parent

Quando o destino fecha uma porta, temos o costume de ajudar o azar e dar mais uma volta na chave. Terminamos nos trancando ainda mais. Aproveitamos para nos isolar ainda mais.

Entramos no modo conspiratório: o mundo está contra nós.

A paranoia é o mel para atrair coisas ruins.

Mas poderia ser diferente.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir o vestido da esposa.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir uma garrafa de vinho.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir um livro.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir uma lata de leite condensado.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir uma amizade.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir nossas gavetas e arrumar a bagunça.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir a cabeça e parar de culpar o destino.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (19/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


ESTÁ FERRADO: ELA SABE DE TUDO

Arte de Richard Hamilton

Homem finge que presta atenção, já a mulher finge que não presta atenção.

Ela grava tudo o que está acontecendo.

Não precisa de câmera pela casa se você está casado.

Sua companhia não depõe as armas, não descansa os ouvidos, não perde uma conversa.

Ela lhe cuida mesmo quando é indiferente, ela lhe observa mesmo quando vira as costas, ela lhe ama mesmo quando parece não amar.

Homem realiza uma tarefa de cada vez, mulher jamais se contenta com uma tarefa.

Na aula de yoga, ela estará se alongando perfeitamente, cantando o mantra, respirando como um monge e também conferindo o estado de suas unhas, qual brecha marcará a manicure, o que almoçará, o que falta entregar do trabalho. Homem preocupado não dá conta nem de sua cãibra.

Descobrirá sua onipotência auditiva na discussão de relacionamento.

Na briga, ela lembrará o que você jurava que passou em branco. Trará o que você tinha certeza de que ela não percebeu. Comentará o que você confiava que não tinha sido registrado.

Homem acredita na impunidade de seus atos. Se aquilo não foi dito no calor da hora, então está livre do julgamento. Que nada! Não existe prescrição de crime no mundo feminino. Ainda que demore meses, anos, décadas, um dia ela vai pedir explicações.

Toda esposa é a justiça encarnada.

Se ela não falou no ato não significa que não viu, somente não quis falar.

Guardará a cena para devolver no momento certo. Seu hábito não é desmascarar uma mentira, porém preparar o flagrante.

Pode suar frio, ela sabe. Pode treinar no espelho, ela sabe. Pode forjar álibis, ela sabe. Pode ensaiar com os amigos, ela sabe. Pode esperar que ela sabe.

Mulher controla os detalhes, as palavras, revisa as frases, testa coerência e continuidade do seu raciocínio em minutos, checa seus antecedentes, cruza dados e fotos, verifica suas pequenas mudanças de comportamento, compara situações e respostas do histórico da relação.

Ela vem com um aplicativo da Polícia Federal a mais no seu DNA.

Se está distraída, esteja convicto de que está disfarçando.

Homem simula que escuta, pega a última frase que escutou e improvisa. Mulher faz o maior dos esforços para se mostrar desinteressada. Sua sensibilidade não sossega um minuto. É uma capacidade monstruosa e maravilhosa de nunca se ausentar.

É pior do que escoteiro: sempre alerta. É evidente que sua concentração absoluta tem efeitos colaterais: o estresse, a irritabilidade, as longas enxaquecas. Mas são consequências naturais para quem fica ligada dia e noite nas movimentações do amor.

Não tem como enganar uma mulher. A única chance é ela se enganar por vontade própria.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 17/8/2014 Edição N°17893

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

NÃO ACHEI GRAÇA

Arte de Umberto Boccioni

Mulher desconfia de homem que tem senso de humor.

Ela diz que prefere os engraçados, mas é mentira.

Homem que responde rindo qualquer desconfiança já é visto como canalha.

Homem que não quer discutir já é visto como insensível.

Homem que faz graça de qualquer coisa já é visto como mentiroso.

Homem que não guarda ressentimento já é visto como esquecido.

Homem que acorda faceiro e dorme de bem com a vida já é visto como um bobo.

Mulher gosta de homens sérios. Homens de cara amarrada. Homens retos, diretos, objetivos, sem verdades pela metade e histórias inacreditáveis.

Confunde a alegria masculina com criancice ou esperteza.

Diante do riso e das brincadeiras a toda hora, ou acredita que ele é infantil ou um sedutor desinteressado no relacionamento.

Ela prefere que olhe nos olhos, preste atenção, participe da conversa sem nenhuma piada.

O que ela ainda não descobriu é que não existem homens sérios.

No máximo, eles andam disfarçados por amor.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (15/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: